18 cartas extraviadas, um tesouro o que encontrei entre meus escombros

Foto Ricardo Wolffenbüttel, BD 13/03/2018

Já não tenho onde guardar meus livros. Mesmo fazendo doações, eles se acumulam nas prateleiras do quarto, na biblioteca da sala, até dentro da churrasqueira. No meu escritório, tinha um sofá tão coberto por livros que ninguém percebia que era um sofá, e como meu gato destruiu seu forro, resolvi trocá-lo por uma estante e só então organizei a montanha de publicações ali empilhadas. Enquanto meu gato perambulava pela casa em busca de outro alvo para afiar suas unhas, eu reencontrava títulos que julgava perdidos. De repente, ensanduichado entre um livro de poemas e um romance, deparei com um envelope pardo que nunca havia sido aberto. Devo tê-lo largado ali enquanto fui buscar um copo d´água, depois o telefone deve ter tocado, e o esqueci. O envelope havia afundado entre os entulhos. Vi a data do carimbo: 04/07/2017.

Era volumoso. Rasguei o lacre e, primeiro, puxei um bilhete manuscrito de uma professora. Aos poucos, minha memória foi voltando: ela havia trabalhado em sala de aula com o meu livro “Tudo que eu queria te dizer”, que reúne 35 cartas fictícias, e agora seus alunos me enviavam respostas, também fictícias, para essas cartas. Maristela Lang, a professora, dizia que foram produzidos 68 textos pelos estudantes do terceiro ano do Ensino Médio, mas ela estava me enviando apenas 18, imaginando que eu não teria tempo para ler todos. Ah, Maristela.

Enquanto eu retirava os 18 impecáveis envelopes brancos que estavam dentro do grande envelope pardo, pensava: a essa altura a garotada já terminou o colégio, devem estar na faculdade. Oh, Deus, que sejam textos horríveis, para que eu me sinta menos culpada pelo meu silêncio.

Não havia nenhum texto menos que ótimo. A criatividade era assombrosa. A cada carta que eu abria da Bruna, da Gabrieli, da Giovanna, do Luis, do Eduardo (queria citar todos), mais emocionada ficava. Eles deram continuidade aos meus enredos. Interagiram com meus personagens. Inventaram reações surpreendentes para meu padre, meu assassino, minha prostituta, até então limitados às minhas histórias. Eu tinha em mãos a prova da potência da literatura, do quanto ela é transformadora, eletrizante. Alguns alunos subverteram a tarefa dada pela professora e escreveram não para os personagens, e sim para eles mesmos, quando estivessem no futuro. Um futuro que já estava em andamento, mesmo paralisado por dois anos num sofá aos pedaços.

Maristela, só me resta uma desculpa pública. Perdão pelo atraso e parabéns pelo projeto que envolveu os alunos da turma de 2017 do Colégio Tiradentes, de Ijuí. Espero que você ainda esteja lecionando, que você siga inspirando os jovens a expressarem seus sentimentos, que sua sala de aula continue sendo um espaço livre para novas ideias, que você ainda os provoque e os encante. Obrigada. Foi um tesouro o que encontrei entre meus escombros.

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