Coluna de cinema: “Star Wars – Os Últimos Jedi” é um dos melhores da franquia

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Por Andrey Lehnemann

É impossível compreendermos a natureza humana em sua totalidade. Nós apenas podemos senti-las nas pequenas coisas, nas nossas ações, nos nossos sentimentos, nas nossas nuances. As escolhas que fazemos em vida, afinal, moldam nosso caráter. Existe, no entanto, uma tipificação de fé que acredita que não é só aqui que colhemos essas nossas escolhas. Que, na verdade, elas nos acompanham continuamente. Estão atreladas ao nosso ser. São uma espécie de força, onde conciliamos a natureza externa com nossa natureza humana. Que aprendemos a controlar essa força. Que aprendemos, por fim, a encontrar o equilíbrio final.

Quando Luke Skywalker explica para Rey os perigos dessa natureza, no momento que ela sente cada camada de sentimento presente no mundo (a violência, a intensidade, o conforto, a magia), ele não esconde suas próprias inseguranças sobre o caminho que escolheu. Suas próprias falhas. Sua arrogância e aonde ela o levou. Luke, agora, vive isolado, como um eremita. Alguém que tentou se afastar da força, da sociedade, de si mesmo, para não precisar mais carregar o fardo do mundo. Rey é sua chance de redenção. Uma chance de encontrar um equilíbrio. Mas ele estaria pronto para agarrar esse momento? Rian Johnson está interessado na manifestação de conexões, sim, mas é na completude de círculos criados por nós no passado que o seu testemunho é mais lindo. Enquanto o sacrifício por quem amamos pode nos dar a certeza de quem somos, em qual espectro estamos, o peso da conexão pode ser dúbio. Todos têm a chance de mudar algo de sua personalidade, de fugir do que é esperado de si, de se desviar do caminho que um dia pretendeu seguir. Lembra da fé que nos acompanha? Ela é mutável. Para o bem, na maioria das vezes. Essa temática espírita sempre esteve presente em Star Wars, mas talvez não nessa magnitude ou brilhantismo.

Quando um velho conhecido do público aparece em cena, nós temos a certeza de algo que desconfiávamos: algumas pessoas são eternas e transcendem a barreira da vida. Não são mais memórias. Elas continuam existindo noutro plano. Elas não desaparecem. Porque elas já são complementares à natureza. Luke encontra esse mesmo caminho numa cena inesquecível, onde observa o sol com a intensidade de alguém que descobriu o segredo. Que descobriu a conexão final. Conexões. Conexões que mostram um garoto espalhando uma simples história de alguém que ficou frente a frente a um exército inteiro (numa das melhores cenas da franquia). Conexões que mostram o mesmo menino brincando com uma vassoura, fingindo ser um sabre de luz. Conexões que fazem com que opostos de uma guerra compartilhem um momento honesto e singelo entre si, mostrando que até o mais temível ser do universo também pode amar alguém.

No oitavo episódio, os ciclos começam a se fechar. Relacionamentos ditando os rumos são retornados. Os novos personagens já não são mais novos. São clássicos. São protagonistas. São Poe, Rey, Finn, Rose. São as novas peças na galáxia. As que lutarão para manter a democracia. Porque a luta nunca para. E como sabemos disso, não é mesmo?

Star Wars nunca soou tão atual, tão espiritual, tão eloquente e profundo quanto aqui, provavelmente. Nem mesmo em O Império Contra-Ataca, eu arrisco dizer. Muito menos seus personagens. Não há mocinhos e bandidos. Há pessoas curiosas, frustradas, aventureiras, angustiadas, enlutadas, desistentes. Há o quê? Pessoas. Quando um personagem queima um templo que continha segredos da civilização, ele sabiamente aponta: são apenas palavras. O que temos dentro de nós é a verdadeira força. Star Wars VIII será um futuro clássico do nosso cinema.

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