A continuar nesse ritmo acelerado, o fim chegará correndo

meditação
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“Não vou me demorar”, disse ela entrando na minha casa, e admito que achei bom, porque eu estava com o dia muito atarefado, mas depois que ela foi embora, me dei conta de que não havíamos conversado o suficiente, e que as coisas que eu tinha pra fazer eram, afinal, menos importantes do que escutá-la. Mas ela saiu voando, já era. Voltará um dia, e mais uma vez será rápida a sua visita, e mais uma vez eu estarei correndo atrás de mais tempo, esse tempo que parece sempre tão reduzido – deixou de ser largo por que?

Pela nossa pressa, ué. Pela urgência de fazermos meia-dúzia de coisas pela manhã e outra meia-dúzia à tarde, ocupando todos os horários da agenda. Não anseio mais essa produtividade que faz com que a vida seja absorvida em goles curtos. A continuar nesse ritmo acelerado, o fim chegará correndo. Quero me demorar.

Esse ano, tirei férias de 30 dias, eu que costumava dividi-las em três parcelas de 10. Continuo gostando da ideia do parcelamento, que me permite conhecer mais lugares, diversificar minhas experiências, mas descobri que 30 dias corridos não correm, passam devagar. Não preciso acordar cedo de manhã para aproveitar o máximo de atividades que conseguir encaixar no dia. Posso estender o almoço até às 17h, perder uma tarde caminhando à beira mar ou com um livro nas mãos – não escuto ninguém me chamando. Já não escuto eu a me chamar.

Antes, quando estava fazendo algo, escutava minha voz me chamando em outro lugar, uma espécie de alarme que não permitia que eu relaxasse. Era como se eu tivesse que sair correndo para amamentar, como se houvesse um amor me esperando no outro lado da cidade, como se eu tivesse que colar um novo caquinho no mosaico da minha vida. E mais um. E outro mais.

Uma vida ativa, movimentada – sempre gostei. Não me queixo. Mas isso tornava os dias mais curtos. Os meses mais ligeiros. O meu sono não tinha sonhos, mal adormecia e logo já estava em pé, abrindo as janelas. Ficava envaidecida com o meu vigor, dependia dele para conquistar meus objetivos, construir alguma coisa. Dar duro sempre foi necessário, mas de agosto até o réveillon era um sopro, eu dava adeus ao ano velho sem ter a sensação de que ele havia sido mesmo usufruído. Estamos em agosto e já é meu aniversário – de novo. Tenho a impressão que recebo “parabéns a você” trimestrais. Faltam quantas horas para dezembro? Os ponteiros do relógio entraram em pane, giram em velocidade supersônica em torno do próprio eixo. Não acredito que vou tirar de baixo da cama a árvore de Natal que desmontei ontem.

Calma aí, disse pra mim mesma outro dia. Não dá pra estar aqui e estar lá adiante no mesmo minuto. Escolhi ficar, e vou me demorar.

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