“A euforia ainda não passou”, diz homem de 94 anos após formatura em Direito

Cerimônia e festa aconteceram neste final de semana, no Rio Grande do Sul

Foto: Ronaldo Daros/RBS TV/Reprodução

A voz firme do reservista do Exército Simão Sklar, 94 anos, embarga quando ele relembra os momentos vividos no final de semana passado. Os últimos dias foram especiais e repletos de emoção, porque marcaram o fim do ciclo de algo que ele sempre gostou de fazer: estudar. Sklar formou-se em Direito pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) de Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul, e contou com a presença de mais de 100 pessoas – entre amigos, familiares, funcionários e professores da instituição – na comemoração que aconteceu no domingo.

– Em função do trabalho, eu parei de estudar aos 18 anos. Voltar a estudar foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Os meus professores da faculdade são pessoas fora de série. Não eram somente professores, eram amigos. Ontem (domingo), eu me emocionei muito com todas as pessoas que vi, todas as homenagens que recebi dos meus colegas. A euforia ainda não passou – conta o mais novo bacharel em Direito.

Ele recebeu o diploma das mãos do filho José Luiz Sklar, também graduado em Direito.

A decisão de voltar aos bancos escolares deu-se após a perda da grande amiga e esposa, Alzira Sklar, com quem foi casado por 67 anos e que faleceu há sete anos por problemas cardíacos. Esse episódio marcou a vida de Simão – que já havia perdido um filho na luta contra o câncer dois anos antes. Ele passou 90 dias recluso e sem vontade de conversar com a família.

Foto: Arquivo Pessoal

– Entrei em desespero, é do ser humano ficar abatido. Me fechei, fiquei debilitado por uns dias até que me deu um estalo. Falei para mim mesmo que não podia mais fazer aquilo, porque eu tinha oito netos e cinco bisnetos, não poderia deixar esse exemplo negativo para minha família. Por isso, decidi que deveria fazer algo por mim e resolvi voltar a estudar aos 86 anos – conta Simão.

Próximos passos : pós-graduação

A matrícula para prestar o vestibular contou com o auxílio de um neto que o levou até a instituição. Ao falar que estava no local para se inscrever para as provas, a atendente não escondeu a surpresa ao ver que o vestibulando havia nascido em 1924. Antes de fazer os testes, Sklar teve que fazer um bate e volta em Porto Alegre para reunir todas as documentações necessárias para a validação da inscrição para o vestibular que aconteceria em dois dias, relembra o reservista.

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– Foi corrido, mas em um dia consegui juntar tudo o que era preciso. No dia seguinte à entrega da papelada, estava fazendo as provas. Fui bem na redação. O tema era sobre a Cachoeira antiga. Dissertei sobre os municípios que foram desmembrados da minha antiga cidade – relata.

O anúncio de que havia passado no vestibular veio enquanto ele fazia um passeio despreocupado pelo shopping da cidade. Quando perguntado sobre o motivo pelo qual optou cursar a graduação escolhida, ele afirma que é porque o Direito preza pelo certo. O filho de imigrantes russos disse ainda que a educação é a base para a transformação social:

– Educação significa tudo para mim. É nela que devemos depositar nossa esperança para sermos um país de primeiro mundo. Eu acredito que o nosso futuro está na educação e no conhecimento.

Para o futuro, bem próximo, Simão prevê o próximo passo: a matrícula na pós-graduação em Direito Civil está feita, e as aulas começam em março.