A força de um pai: Eduardo Corte encontrou apoio nas redes sociais

Ele teve que lidar com a morte inesperada da esposa e a notícia que o pequeno Arthur tinha Síndrome de Down. Encontrou na internet o apoio que precisava para encarar o desafio

Neste domingo, 11 de agosto, o pequeno Arthur completa seu primeiro mês de vida. É também o primeiro dia dos pais de Eduardo Corte, que sonhava com a data de uma maneira bem diferente. Nos últimos meses ele vinha fazendo planos ao lado da esposa Gizelly. O casal vivia o momento mais especial da relação, à espera do primeiro filho. Aos 39 anos Gizelly teve uma gestação tranquila, fez todos os exames do pré-natal e aguardava com expectativa a chegada do bebê. O quartinho estava pronto, o chá de fraldas tinha sido realizado, as lembrancinhas da maternidade haviam sido preparadas com muito carinho pela própria mãe.

Com pouco mais de 38 semanas de gravidez Gizelly começou a se sentir cansada, nada anormal para quem está na reta final da gestação. Teve contrações e chegou a ser examinada na maternidade, mas mãe e bebê estavam bem. As preocupações começaram quando, certo dia ao voltar para casa, Eduardo encontrou a esposa com dificuldades para pronunciar as palavras, falando de maneira enrolada, e muita dor na face. O marido correu para o pronto atendimento, imaginando algo mais sério como um AVC, e foi tranquilizado pela informação de que sua mulher devia estar passando por uma crise de ansiedade somada a uma gripe. Como Gizelly foi medicada e estava se sentindo bem, voltaram para casa.

Eduardo e a esposa Gizelly viveram o sonho da gravidez intensamente
Foto Arquivo Pessoal

Dois dias depois uma nova crise no meio da madrugada, ainda mais forte, motivou o pedido de socorro para o SAMU. De ambulância o casal foi para o hospital, onde exames de sangue revelaram que a mãe de Arthur estava com um nível baixíssimo de plaquetas, um dos sintomas de uma síndrome rara chamada HELLP que é a forma mais grave da pré-eclampsia e afeta mulheres somente na gravidez. Como o bebê já estava em sofrimento, uma cesárea de emergência precisou ser realizada. Gizelly recebeu transfusões de sangue, ficou na UTI e chegou a ser levada para o quarto, mas faleceu três dias depois.

Foi no meio desse turbilhão de emoções que Eduardo conheceu Arthur. Durante a gravidez nenhum exame havia apontado qualquer alteração no bebê, mas logo que ele viu aquele menino franzino, com olhos puxadinhos e colocando a língua para fora, o pai soube que seu filho era uma criança especial. Antes da esposa partir, Eduardo ainda contou para ela que o bebê tinha síndrome de down. A felicidade de ter os dois naquele momento era tamanha que o pai não havia se dado conta do tamanho do desafio que estava por vir. Gizelly chegou a ter o filho no colo e mostrá-lo para os avós. “A situação dela era delicada e por orientação médica nem poderíamos ter levado o bebê até lá, mas sou muito grato por isso ter acontecido e ela ter conhecido nosso Arthur e ele ter sentido o cheirinho da mãe”, conta emocionado Eduardo.

A volta pra casa

Depois de se despedir da esposa que tanto amava, Eduardo precisou encontrar forças para um novo desafio. Levar para casa aquele bebê pequenininho, sem saber ao certo como cuidar, mas com a certeza de que ele receberia muito amor. Teve que aprender a trocar fraldas, dar banho, preparar a mamadeira, colocar para arrotar, cuidar do umbigo e uma infinidade de outros cuidados que um recém-nascido exige.

Arthur no seu ensaio newborn
Foto Estúdio Pri Borba/Divulgação

Sozinho e um tanto assustado com a responsabilidade, Eduardo fez um desabafo ao vivo nas redes sociais, um pedido de ajuda que rapidamente começou a ser compartilhado. O perfil de Arthur no Instagram, criado ainda durante a gravidez, passou de cerca de 300 seguidores para quase 9 mil. Foi pela internet que Eduardo começou a receber apoio de pessoas que nem conhecia. Mães, médicos, instituições que ajudam crianças com Síndrome de Down. Até as fotos do ensaio newborn que ilustram essa reportagem foram um presente. “Não quero dinheiro nem que pensem que estou me aproveitando, só quero orientação para oferecer o melhor para o meu filho e proporcionar o desenvolvimento que ele merece”, reforça Eduardo.

Nesse primeiro dia dos pais ao lado de Arthur Eduardo quer comemorar. Afinal são 30 dias também com o maior presente que a esposa Gizelly poderia ter lhe deixado. Eu conheci pessoalmente essa dupla encantadora, que vem espalhando amor pela internet, e conversei com o papai sobre esse momento difícil, mas de muito aprendizado.

Como foi esse primeiro mês ao lado do Arthur?
Essas primeiras semanas foi como se eu estivesse anestesiado, foi muita informação em tão pouco tempo. Eu tive uma grande perda, minha esposa Gizelly, e tive a felicidade dela me deixar o que ela mais queria: o Arthur. Ele é uma criança especial, isso não foi um choque, mas eu sei que ele necessita de cuidados diferentes. Tenho tentado superar o meu luto, suprir a falta da minha esposa, com o amor dele e ele tem me ajudado muito. Se tem um cara que é grande é esse pequeno aqui!

De onde veio a ideia de criar um perfil para o Arthur nas redes sociais?
O perfil dele foi criado quando nós descobrimos a gravidez! É até engraçado porque eu desconfiei que a Gizelly estava grávida antes dela. Minha esposa andava muito sonolenta e comprei um teste de farmácia. Apareceu um risco só, mas eu não acreditei no resultado e comprei o segundo teste, que coloquei na árvore de Natal no dia que estávamos montando. Mais uma vez deu só um risquinho, mas eu tinha tanta certeza que fizemos o exame de sangue. Foi uma explosão de emoção quando a gravidez foi confirmada. Ali começou o Instagram do Arthur, um lugar pra gente compartilhar nossa felicidade. Só que não tinha tantos seguidores.

Foto Estúdio Pri Borba/Divulgação

Você ficou surpreso com o aumento do número de seguidores nos últimos dias?Muito. Foram mais de oito mil em uma semana. Tudo começou numa sexta-feira que decidi buscar ajuda para o Arthur. Fui até a Fundação Catarinense de Educação Especial e descobri que a fila de espera era grande, aí entrei em desespero porque não sabia como eu devia agir. Naquele momento fiz uma transmissão ao vivo, as pessoas começaram a compartilhar a história e o número de seguidores explodiu. Muitas pessoas me chamaram oferecendo ajuda, seria até injusto citar nomes, mas são pessoas que me acolheram, profissionais que se colocaram à disposição me alicerçando de informações para que o Arthur tenha um ótimo atendimento.

Como vai ser o seu primeiro dia dos pais?
Para falar a verdade eu não estava nem preparado para isso, mas o dia dos pais é também o aniversário de um mês do Arthur. Então eu pensei: por que não fazer uma primeira festa? Ele merece! E sei que é o que mãe dele gostaria de fazer.

 

Sobre a Síndrome de HELLP
É uma complicação da gravidez que atinge apenas 0,5% das gestantes como uma forma mais grave da pré-eclampsia, podendo ocorrer também de forma isolada. Os sintomas mais comuns são cansaço, retenção de líquidos, dores de cabeça, náuseas, dor na parte superior do abdômen, visão turva e mal estar generalizado. Suas causas são desconhecidas e o diagnóstico é geralmente feito com exames de sangue, que apontam baixa contagem de plaquetas e destruição dos glóbulos vermelhos.

Sem uma correta avaliação laboratorial, os sintomas podem passar despercebidos, diagnosticando-se a Síndrome de Hellp apenas quando ela se agrava, o que pode provocar a morte materna. O tratamento geralmente consiste na realização do parto o mais rápido possível e na administração de medicamentos e transfusões de sangue.

 

 

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