A gente faz porque tem que fazer, mas também faz porque gosta

pai e filho
Foto: Pexels/Banco de Imagens

Sempre que eu ia dormir minha mãe me cobria com um cobertor velho, meu favorito, que tinha o Snoopy desenhado e eu chamava de tapa-tapa. Lembro da minha mãe empurrando com as mãos a coberta por debaixo do meu corpo, prendendo meu corpo como em um casulo. Me beijava e ia dormir.

Durante a adolescência, simplesmente esqueci desse carinho. Quando tive minhas filhas, relembrei. Tento passar para elas todo o amor que minha mãe me deu. Sei que parece invisível. É como aquele peixe que passa por um peixe mais novo e pergunta: “Como está a água?” O peixe mais novo responde: “Água? Que água?” Quando estamos envoltos de amor, não sabemos o nome daquilo. Vai ter muita coisa na vida para gente passar. Vai ter muito coração partido e decepção. A vida às vezes é dura. Dá uma vontade danada de voltar para o casulo de coberta.

Percebi esses dias que filho é uma coisa para sempre. Por mais que eles cresçam, saiam de casa, estaremos sempre preocupados. Serão sempre nosso problema. Não vamos nunca querer que quebrem a cara. Mas quebrarão. Nessas horas gostariam de voltar para bossa cabana feita de lençol? Gostariam de rir novamente com minhas cosquinhas? Voltariam para o sono com a cabeça apoiada no meu peito? Vão querer abraços demorados? Beijos na testa?

Amor de pai é enchente invisível. É obrigação e lazer. A gente faz porque tem que fazer, mas também faz porque gosta. Amor de pai é espiar de longe. É torcer por você sem falar nada. Amor de pai é infinito, dá voltas daqui até os anéis de Saturno, indo e voltando, incontáveis vezes. Você não consegue enxergar. Tem que usar lentes. A gente só vê depois de velho. Mas ó, sem spoiler: é bonito demais.

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