O post-it na porta da geladeira: a lógica por trás das resoluções de ano-novo

Foto. Pixabay

Eu prefiro o termo “resolução de ano-novo” a “promessa de ano-novo“: a palavra “promessa“, mesmo que feita voluntariamente, e para si mesmo, me faz pensar em algo meio chato, algo a ser cobrado pelos outros, algo sacrificante ou difícil demais – a ponto de a pessoa ter que fazer algo tão pesado quanto um juramento para poder transformar em realidade. Já a palavra “resolução” me faz pensar em decisão: eu quero isso, eu decidi fazer isso, eu vou fazer – e ai de quem tentar se meter no meu caminho!

Seja qual for o termo de sua preferência, as resoluções de ano-novo são um clichê, e falar de resoluções de ano-novo é um clichê – mas, como diz um amigo meu, se algo chegou a se tornar clichê, provavelmente é porque funciona. Assumo: sou clichê. Faço resoluções de ano-novo. E levo a sério: boto tudo no papel, planejo, faço um acompanhamento mês a mês da evolução dos meus objetivos – e, no próximo dezembro, reviso e vejo quantos pontos fiz nesse game contra mim mesma.

Muita gente que tem esse mesmo hábito vê na coisa toda um certo misticismo – sabe aquela história de que, quando você deseja algo com todas as suas forças, “o Universo todo conspira a seu favor”? Aquele papo meio O Segredo: escreva seus sonhos em um post-it e cole na porta da geladeira, leia todos os dias, atraia a energia daqueles sonhos para você, acredite que eles já são reais – e eles se tornarão reais, porque assim diz a tal Lei da Atração. Espalhe para todos o que você quer, para mandar essa mensagem ao mundo e fazer com que a energia positiva desses sonhos volte para você. Desculpem a falta de poesia, mas eu acho tudo uma bobagem. Ou melhor, não tudo: para mim, existe um certo fundamento por trás da tal conspiração universal a favor dos sonhos de fulano ou beltrano – mas não desse jeito mágico, em que uma energia sobrenatural traz à sua porta o emprego dos sonhos, o mestrado no exterior, o par perfeito, aquela viagem incrível. Eu acho que tudo tem uma explicação muito prática – e bem simples.

Digamos que na noite de ano-novo eu olhasse para uma estrela no céu e dissesse: “Forças do Universo, eu vou fazer um mestrado na Holanda em 2019. Vamos conspirar a meu favor para que eu consiga, sim?” Muito bonito. Mas nas semanas seguintes eu esqueço a resolução. Não pesquiso nada. Perco os prazos de envio de documentos. Perco a oportunidade de conseguir uma bolsa – que, claro, eu nem sabia que existia, porque não pesquisei direito. Não me preparo para a prova de proficiência em inglês. Claro que as forças do Universo não vão poder fazer nada por mim, certo?

Agora, se eu escrever em algum lugar (pode ser o post-it na porta da geladeira, um arquivo no Google Docs, um cartaz na parede do meu quarto – no meu caso, é uma listinha na primeira página da agenda, que eu tenho o hábito de usar e olhar várias vezes por dia) o meu objetivo, o que muda? A intensidade das forças do Universo? Acho que não. Mas, toda vez que ler aquela frase, eu vou lembrar da minha resolução. Em janeiro, eu vou ler e pesquisar tudo. Em fevereiro, vou ler e lembrar que preciso me inscrever na prova de proficiência. Em março, vou ler e enviar meus documentos na data certa. Em abril, vou pegar a inscrição e me candidatar para a bolsa que descobri nas minhas pesquisas. E, lá pelo final do ano, talvez, se tudo der mesmo certo, vou ler e lembrar que preciso comprar as passagens e fazer as malas. Eu fiz um plano. Me organizei. Botei no papel. Segui o plano. Voilà: as forças do Universo fizeram sua mágica não só porque eu li aquilo todos os dias, mas porque ler aquilo me empurrou para fazer o que eu efetivamente precisava fazer.

Da mesma forma, acreditar que vai conseguir algo não faz a misteriosa Lei da Atração transformar em sólido um desejo imaterial – mas te dá confiança e vontade para correr atrás. Ou você vai se dar o trabalho de ir àquela entrevista de emprego se não achar que tem pelo menos 1% de chances de ser selecionado? Uma vez, o vocalista de uma das minhas bandas favoritas, ao receber um prêmio, foi perguntado se acreditava, quando era mais novo, que seu grupo tinha potencial para um dia receber honrarias como aquela. E respondeu: “Claro que eu acreditava. Se não acreditasse, nunca teria saído da minha garagem.” Arrogância? Que nada. Confiança. Vai dizer que não faz sentido? E outra coisa: aquela mulher incrível não caiu dos céus para os seus braços só porque você resolveu anunciar todos os dias para as forças do Universo que queria uma namorada – provavelmente um dos seus amigos ouviu, lembrou daquela amiga solteira que combinava com você, e deu um jeito de apresentar os dois.

É meio chato. É meio assustador, talvez – mas esse ano, e essa vida toda que está aí à sua frente, é sua responsabilidade. Não tem mágica. Não tem forças do Universo. Não tem Segredo nenhum. No final do dia, são seus esforços que contam. O que você escolheu, fez ou deixou de fazer. Anotar no papel, treinar a auto-confiança, contar para os amigos – tudo isso são só ferramentas. Instrumentos que você pode ou não usar para chegar lá – assim como existem infinitos outros instrumentos, que variam de pessoa para pessoa. Tem gente que não usa nenhum deles – e mesmo assim está chegando lá, com seus próprios métodos. E suas próprias forças “mágicas”.

Eu vou continuar escrevendo minhas resoluções de ano-novo na agenda – e fazendo pequenos planos, a cada mês, para transformá-las, uma a uma, em realidade.

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