“Óbvio que sofremos por amor em qualquer idade, mas a passagem do tempo nos refina”

Hábitos saudáveis devem ser seguidos. Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Um ano atrás, assisti à grande Juliette Binoche no filme Deixe a luz do sol entrar, cujo tema é o amor na maturidade. Uma decepção. A personagem, na faixa dos 50 anos, é obcecada pelo amor romântico, como se nada mais na vida importasse: nem a filha, nem os amigos, nem a carreira. Infantilizada, chora baldes porque seus encontros não prosperam.

Lá pelo fim do filme, Gerard Depardieu, sempre uma presença magnética, faz uma participação especial e dá um toque pra madame: o amor é a coisa mais importante da vida, mas, durante as entressafras, a solidão pode ser solar também. Descoberta que já não merece um “extra! extra!”, vai dizer.

Agora estive no cinema para assistir a Gloria Bell, com temática semelhante, porém mais realista do que o filme francês: a espetacular Julianne Moore interpreta uma mulher divorciada, filhos criados e distantes, com amigos ocasionais e que vive às turras com um gato que invade sua casa, mas que ela não quer como companhia: prefere sair pra dançar e ver o que a vida oferece.

Às vezes volta sozinha pra casa, às vezes passa a noite fora com um desconhecido, até que surge um cara em quem, tudo indica, vale a pena apostar. E a coisa não sai como o planejado, claro. A questão é até quando isso será tratado como o fim do mundo.

Queremos amar e ser amados. Aos 18, aos 38, aos 58 anos e mais. Encontrar alguém não é difícil, fazer a coisa funcionar é que é. Quando jovens, queremos que nossas ilusões fechem com as ilusões do outro. Se não fecham, dói. Já na maturidade, são nossas desilusões que precisam fechar com as desilusões do outro – me parece um ponto de vista mais divertido para construir alguma coisa.

O que me incomoda em alguns filmes que tratam sobre o amor na maturidade é que há uma insistente inclinação para o drama, como se todo adulto fosse um carente patológico que não consegue conviver consigo mesmo. O amor, nesta etapa, deveria ser encarado como uma sorte, um presente, não como uma corda a ser agarrada.

Não faz sentido agirmos feito crianças indefesas lutando contra amores imperfeitos. A esta altura, deveríamos estar acostumados com as imperfeições. Já tivemos filhos e sabemos que eles não vêm embalados em papel celofane, já desencanamos do “pra sempre”, já entendemos que não existe gênio da lâmpada e desejos atendidos, então o que nos resta é se relacionar com leveza, com humor e sem tanto idealismo.

O bom da maturidade é que ela nos torna mais tolerantes com aquilo que é frustrante, chato, incompleto, mantendo nosso foco na parte bacana da história. Óbvio que sofremos por amor em qualquer idade, mas a passagem do tempo nos refina. Então, no cinema como na vida: menos neura, mais ventura.

 

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