A tênue linha entre a preocupação e a ansiedade

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Marco médico por qualquer coisa, “só por desencargo de consciência”. Não dizem que o diagnóstico precoce é a chave para curar ou pelo menos controlar até as doenças mais sérias? Uma manchinha na pele, dermatologista. Uma dificuldadezinha para respirar, pneumologista. Uma dor esquisita no peito, cardiologista. Uma irregularidade mínima na menstruação, ginecologista. E fico incomodadíssima (para não dizer bastante preocupada) quando meus familiares, namorado, amigos, pessoas queridas de modo geral não fazem a mesma coisa. Vivo dizendo “você devia ir ver um médico” quando os outros reclamam de dores aqui, tonturas ali, enjoos lá. “Depois você vai descobrir quando isso aí já estiver avançado e vai ser muito mais complicado de resolver!”

Não sei de onde vem isso. Talvez em uma vida passada eu tenha morrido de uma doença horrível, que poderia ter sido tratada se eu tivesse corrido pro médico quando aquela dorzinha mínima começou. Mas eu bobeei e pá, não deu mais tempo. Talvez eu tenha carregado esse arrependimento como uma lição pra vida de cá.

Já me disseram que eu devia procurar por terapia. “Não é normal ficar o tempo todo tão preocupada com essas coisas, Marina“. Olha – não é o tempo todo: é só quando eu sinto algo esquisito. Também já ouvir dizer que, no fundo, todo mundo precisa de terapia – mas que só vale a pena correr atrás disso quando seu problema está realmente atrapalhando sua vida, empacando seu dia-a-dia, consumindo suas noites (eu durmo muito bem, obrigada). Mas eu ouvi muito essa frase (“Marina, você precisa ir se tratar!”) no começo desse ano, quando essa hipocondria – ou noia, chame como quiser – fugiu um pouquinho de controle. Só um pouquinho.

Uma série de sintomas me convenceu de que eu podia ter uma doença séria. De verdade, parece que foi a vida zoando com a minha cara: por uma coincidência de sintomas totalmente desconexos, cada um com sua causa independente, eu já estava me auto-diagnosticando com um problema gravíssimo – porque tudo isso junto “não pode ser coincidência!”, eu choramingava pro meu namorado. Bom, era – ainda bem. Mas, enquanto eu visitava médicos e esperava resultados de exames, minha preocupação me rendeu falta de ar, taquicardia, uma inquietação e uma tristeza que não passavam de jeito nenhum.
Eu não conseguia relaxar. Não conseguia pensar em outra coisa ou me despreocupar. E aí eu comecei a ouvir de todo mundo – do namorado, da irmã estudante de psicologia, da mãe (elas sempre sabem), do amigo que já passou por uma situação parecida: é ansiedade. Você precisa parar de se preocupar com seu corpo, e começar a dar mais atenção para a sua cabeça.

“Você tem que parar e pensar o que está causando essa ansiedade, que te faz ficar pensando o tempo todo nessa possibilidade de estar doente”, me disse a psiquiatra, que eu visitei (meio a contragosto) por indicação da médica geral.

Mas peraí: eu só estou ansiosa porque estou pensando na possibilidade de estar doente! Ou será que não?

Confesso: não fui fazer a tal terapia ou acompanhamento psicológico (pelo menos por enquanto). Mas, finda a bateria de exames na qual eu mesma me enfiei, comecei a prestar mais atenção na minha relação com minha própria vida, meus próprios pensamentos. Parei de pesquisar qualquer sintoma besta no Google.

Parei de (ou pelo menos evito) ficar o tempo todo listando mentalmente, repetidamente, as coisas que tenho a fazer no dia, na semana, no mês – faço uma lista em algum lugar, para me tranquilizar quanto à possibilidade de esquecer alguma coisa, e depois tento tirar isso da cabeça. Parei de me apressar – de contar os minutos pra tudo, de me irritar por estar presa no trânsito, de ficar o resto do dia puta da cara por causa de um atraso. Parei de, por pressa, pular o alongamento no fim do treino da academia, e agora faço ele bem caprichadinho.

Comecei a dizer mais “sim” para rolês no meio da semana; e comecei a ir dormir mais cedo nos dias em que estou em casa – ou pelo menos ir deitar mais cedo, para ter um tempinho de relaxamento, lendo um livro, deitada na cama, na penumbra do meu quarto aconchegante.

E muitos dos meus sintomas, juro, se foram.

Eu não estou dizendo para você abandonar o médico, por favor: a história do diagnóstico precoce é sim super importante, exames preventivos são sim super importantes, e você precisa sim cuidar do corpo que vai habitar por vários anos aqui neste mundo. Mas também estou aprendendo que a solução de muita coisa está dentro da nossa cabeça: nós só precisamos prestar mais atenção nela, e cuidar dela tanto quanto cuidamos do resto. Lições que eu ainda estou aprendendo. Porque a linha entre a preocupação legítima e a ansiedade (ou a minha hipocondria) é mais tênue do que parece.

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