A Vida Invisível, candidato do Brasil ao Oscar, é um tratado sobre a complexidade da vida

Fernanda Montenegro em cena em "A Vida Invisível". Divulgação / RT Features

*Andrey Lehnemann, especial

O crítico Roger Ebert costumava escrever que o cinema é a única arte visual que você pode se debruçar sobre uma história que não é a sua, nos olhos de quem você não é. Acrescento: é uma arte que lhe apresenta o contato com o suspense sem que lhe deixe virar as costas e ir embora sem uma experiência completa – de início, meio e fim. Seja uma jornada feliz, triste ou inquietante, ela lhe proporciona aprendizados sobre quem vimos, sobre quem somos e sobre quem podemos ser; e você não consegue abandoná-la na metade.

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O debate desta jornada pode ter o caráter pessoal do ensaísta, mas ele necessitará da impessoalidade para comentar sobre o que viu, ainda que, claro, aproveitando-se de seus caracteres pessoais para descrever o impessoal. É neste paradoxo que assisti a dois filmes próximos e distantes, no final de semana: Diga Quem Sou, que está disponível na rede de streaming Netflix, e o filme brasileiro pré-indicado ao Oscar, A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, que estreará oficialmente nos cinemas hoje, 7, mas que teve pré-estréia no CineShow do Beiramar Shopping. Ambos filmes debatem sobre o tênue fio de nossa memória, a busca de uma lembrança consoladora, uma projeção que nos ofusque o pior que passamos durante uma vida que simplesmente não saiu como o esperado. A comparação, no entanto, para por aí.

A principal pergunta de Karim Aïnouz corresponde a: “de quantas lacunas uma história precisa?“. Qual a diferença entre o que previmos, o que realizamos, o que idealizamos e o que é real? A Vida Invisível é justamente sobre uma vida que não se fala, uma vida desigual, ainda que, ironicamente, tão comum. O resumo da obra do cineasta cearense é que a vida nunca sairá como imaginamos. São as lacunas, entretanto, que carregam a força do filme – as famosas entrelinhas – e, por que não, da bagagem de cada um de nós.

Ontem foi um dia difícil, mas não quero falar sobre isso agora“, alude Guida Gusmão, que se separa de sua amada irmã para desfrutar da liberdade estrangeira e sair da repressão sexual que vivia em casa, nos anos 50, com o país passando por uma catarse política que não é explicitada no filme, ainda que seja observada nas condições de vida e trabalho de seus personagens. Ao abraçar uma liberdade, Guida passa a se distanciar do conservadorismo familiar e embarcar em algo que se torna mais sagrado para ela: “eu compreendo agora que família não é sangue, família é amor“, ela chega a pensar quando se equilibra. Bárbara Santos, fantástica como Filomena, é o contato mais cru com a realidade que Guida tem no seu caminho. Ela lhe separa da idealização de um encontro com a irmã. É ela que lhe indica o presente, o mundo e que a vida que levamos é capaz de nos levar sem que consigamos agir sobre ela. Afinal, a vida que levamos nos leva.

Do outro lado, Eurídice Gusmão reprime seus sentimentos para viver o que se espera que ela viva, jamais o que ela gostaria. Ela vive em constante idealização, sem nunca conseguir desfrutá-la. Sua busca contínua pela irmã evidencia seu sofrimento contínuo com sua própria realidade. E, claro, a esperança de seu passado lhe trazer a expectativa do sonho musical novamente. Quando sua projeção se torna capaz de se tornar real, as perguntas daqueles que a cercam ressoam com pessimismo e afronta: “mas qual é o plano? é isso que queres, mesmo, o sucesso musical?“.

A pergunta oferecida, nesta ótica, é na verdade: “por que ainda insistes em sonhar? Como ainda és capaz disso?“. Eurídice se torna, como a maioria de nós, uma pessoa resignada. Sufocada por suas lacunas. Entusiasmada com a chegada de um ano novo que é velho. Sempre na expectativa que um ano será melhor que o outro até chegar a conclusão que nenhum deles foi realmente bom. Por quê? Porque nunca viveu sua vida idealizada. Viveu, pelo contrário, sob a sombra de uma vida invisível. Uma vida que se tornou invisível diante da subvalorização social do indivíduo, de seu talento, de seu conteúdo, de seu gênero e de sua arte. Karim Aïnouz reforça, assim, o testemunho poderoso do cinema ao nos fazer pensar quem somos, o que queremos e como podemos chegar lá – e tornar a vida que idealizamos naturalmente visível.

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