Adriana Calcanhotto fala sobre influência modernista no espetáculo que chega a Santa Catarina

Nesta entrevista, Adriana comenta a importância do trabalho realizado em Portugal nos últimos anos no novo disco

adriana calcanhotto
Foto: Catharina Henriques/Divulgação

A Adriana Calcanhotto que chega a Santa Catarina neste mês — ela se apresenta em Florianópolis no dia 10 — traz na bagagem muito mais que música. O novo espetáculo da intérprete, intitulado A Mulher do Pau Brasil, foi idealizado como concerto-tese, a conclusão da residência artística de Adriana na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde atuou nos últimos dois anos como professora e embaixadora da língua portuguesa. Não é só a literatura de forma ampla que está representada neste trabalho. O movimento modernista brasileiro é o ponto central do mais recente disco. O show que estava marcado para o dia 9 em Jaraguá do Sul foi adiado pela produção.

A imensa repercussão do show em Portugal gerou a turnê que começou pela Europa e chegou ao Brasil em agosto. Adriana elaborou um roteiro com músicas compostas no período lusitano, releituras como a recente As Caravanas, de Chico Buarque, e também reencontra clássicos de seu repertório, como Inverno, Vambora e Esquadros.

A inédita canção-título do espetáculo abre o show em tom autobiográfico: “Nasceu no Sul, foi para o Rio e amou como nunca se viu” e também retoma o nome de um espetáculo do início da carreira de Adriana, ainda em Porto Alegre nos anos 1980.

Ela justifica o nome ao explicar que naquela época começou a ser instigada pelo Manifesto da Poesia Pau Brasil, do modernista Oswald de Andrade, e a influência no movimento tropicalista décadas depois. Não à toa que Vamos Comer Caetano, composta para o disco Marítmo (1998), foi retomada no repertório e sublinha o conceito antropofágico da apresentação, por meio da ideia de devorar, se apropriar e reinventar a informação que vem de fora.

Por e-mail, Adriana respondeu questionamentos da reportagem sobre o novo trabalho, mas não comentou questões políticas. Nesta eleição, Adriana foi um dos nomes famosos a se manifestar contra o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e defendeu a candidatura de Fernando Haddad (PT): “chegou a hora de elegermos um professor”, disse em vídeo postado em sua página no Facebook.

Seu novo disco, A Mulher do Pau Brasil, tem o nome inspirado no modernismo brasileiro. De que forma a relação com este movimento está presente nas canções que compõem este trabalho?

As ideias modernistas, o pensamento antropofágico, tudo isso sempre me acompanhou. Às vezes de maneiras mais explícitas, outras menos. Desde o momento em que descobri isso e fui estudar, pesquisar e entender também a influência que tudo isso teve no trabalho de outros artistas, que vieram antes ou depois de mim. E isso é muito forte.

Em 2015, você foi nomeada embaixadora da língua portuguesa pela Universidade de Coimbra. Como se deu isso e o trabalho que realiza em Portugal?

A estadia em Coimbra foi maravilhosa. Em princípio era somente para ser embaixadora, depois fui convidada para dar aula. Seria só um semestre, depois foi mais um semestre. É uma tradição que existe de pensar o Brasil de Coimbra. Uma experiência superinteressante. Eu só posso ser muito grata.

O espetáculo a A Mulher do Pau Brasil é chamado de concerto-tese, em que você aplica a pesquisa que desenvolveu em Portugal. Como trazer para o palco a vivência acadêmica?

O meu trabalho de estudo de literatura em Coimbra tem muito a ver com música em geral, com a história do Brasil e a nossa identidade. Isso me ajudou muito a olhar para a minha trajetória e entender que muitas coisas que pareciam disparatadas, pareciam coisas diferentes, eram na verdade a mesma coisa. Então foi algo muito orgânico, no fundo eram todas da mesma matéria-prima com que eu trabalho, a vivência acadêmica e a arte de representar em shows.

De que maneira você percebe que o Brasil e a música feita aqui são vistos na Europa?

Acredito que a ideia antropofágica é até agora a que faz mais sentido para entender e explicar o Brasil com olhos europeus. Estar em Coimbra e olhar para o Brasil desta maneira, fica muito claro que o sentido de estranhamento é grande. De lá fica impossível não olhar para cá por essa lente antropofágica e modernista.

Você circulou pelo universo infantil em Partimpim, que virou um espetáculo. O que te motivou a criar este trabalho e que resultados colheu?

Eu sempre tive vontade de criar algo infantil, era um sonho. Cheguei até a assinar como Adriana Partimpim para não misturar as intérpretes, porque na época entrar nesse universo era algo muito diferente do que eu estava acostumada. Os shows deram muito certo, estavam sempre cheios. Foi bem melhor do que eu imaginava, ou qualquer um imaginava.

SERVIÇO

Adriana Calcanhotto em Santa Catarina

Florianópolis: Dia 10/11, às 21h.

Quanto: A partir de R$ 120. Em Jaraguá do Sul, desconto de 29% e, em Florianópolis, desconto de 18% para sócio do Clube NSC na compra do ingresso antecipado no site Ticketcenter e DiskIngressos, respectivamente.

Onde: Teatro Ademir Rosa – CIC (Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Florianópolis)

*O show que estava marcado para o dia 9 em Jaraguá do Sul foi adiado pela produção.

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