“Ainda falta muito, pai?” Um diálogo sobre aquilo que queremos que dure pra sempre

"Depois a gente vai morrer. Um dia todo mundo morre"

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O diálogo:
– Ainda falta muito, pai?
– Falta, filha.
– Falta muito muito?
– Falta.
– Quanto?
– Mais ou menos contar até 60 umas 200 vezes.
– Um, dois, três…
– Conta mais baixo, por favor?
– Cinco, seis, sete…
– Mais baixo um pouquinho, por favor.
– Oito, nove, dez… quantas vezes 60?
– Duzentas.
– Dez, onze… me perdi.
– Começa de novo.
– Um, dois… Ah, não! É muito chato ficar contando. Tá chegando?
– Não, filha. Como eu disse, essa viagem é demorada, você tem que ficar olhando a paisagem.
– Me empresta o celular?
– Não, tô usando pra saber o caminho.
– Ai, que coisa chata! Não tem nada pra fazer?
– Aproveita pra pensar na vida, filha.
– O que você queria ser quando era criança?
– Acho que quando eu era criança nem pensava nisso. Eu ficava só esperando a hora de chegar da escola pra poder brincar com meus amigos. Eu adorava correr, andar de bicicleta, jogar bola. Eu acordava de manhã e ia ver desenho. Eu gostava de sábados. Eu queria crescer pra poder dormir a hora que eu decidisse.
– Quando eu crescer você vai ser velhinho?
– Sim. Mas espero que a gente viva bastante.
– Mil anos?
– Mil anos, se der. Provavelmente um pouco menos. Quando você crescer, eu vou ser velhinho. Eu e a mamãe vamos ficar com cabelos brancos, vamos morar numa casa e você vai nos visitar de vez em quando.
– Eu vou morar com vocês.
– Olha, depois dos 90 é melhor você morar sozinha. Você vai querer morar em outro lugar. Casais de 200 anos são chatos.
– Que nem uma viagem de carro que não tem nada pra fazer.
– É.
– Eu vou morar do lado da casa de vocês, então.
– E a gente vai fazer almoço de domingo pra receber você. Sopa de letrinha.
– Oba!
– E você vai nos contar sobre a vida. E a gente vai tentar não ficar se metendo nas suas histórias. Que velho adora dar conselho.
– Você adora dar conselho. Tudo que acontece, você me dá conselho.
– Pronto, já tô ficando velho.
– Então eu já vou morar sozinha.
– Mas venha nos visitar nos domingos.
– Combinado.
– E vão chegar os domingos que você não vai conseguir nos visitar, porque está ocupada ou tem outros planos. Um dia você vai ter a sua própria família.
– Mas a gente vai conversar pelo telefone, papai.
– É, não esquece de ligar pra gente.
– Você esquece de ligar pra vovó.
– Rá. Verdade.
– Eu vou ser uma filha bem melhor que você.
– E quando eu for velhinho minha mãe vai ser mais velhinha ainda.
– E depois, todos vocês vão morrer.
– Depois a gente vai morrer. Um dia todo mundo morre.



– Ainda falta muito, né pai?

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