“Temos excelentes artistas e trabalhos autorais de peso em SC”, diz Alberto Heller

Compositor da ópera-rock Frankenstein, da Camerata Florianópolis, avalia o cenário cultural catarinense

Fotos Tóia Oliveira, Divulgação

Este ano, a Camerata Florianópolis levou para os palcos um dos seus projetos mais audaciosos: a Ópera Frankenstein. O espetáculo é uma adaptação do clássico de Mary Shelley, obra com 200 anos de existência. O texto da ópera é de Alberto Andrés Heller, compositor, pianista e pesquisador. A estreia nacional aconteceu no mês de junho.

Nascido em Buenos Aires, Heller veio para o Brasil aos dois anos de idade. Morou em Curitiba, onde naturalizou-se brasileiro. O currículo dele é extenso. Estudou música, inicialmente no Paraná e depois na Alemanha. É graduado e pós-graduado pianista pela Escola Superior de Música Franz Liszt, em Weimar, meste em Educação e doutor em Literatura, este dois últimos pela UFSC.

Seu trabalho na Camerata iniciou em 2000. É dele os arranjos dos espetáculos Rock’n Camerata – inclusive na apresentação no Rock in Rio com o guitarrista Steve Vai -, Música para Cinema, Marley in Camerata, Música Eletrônica (com Elekfantz e Gui Borato), Clássicos com Energia, Memória Catarinense (músicas de Abelardo Sousa, Álvaro Sousa e José Brasilício Sousa), Tributo à Música Popular Brasileira e Especial Beatles, entre outros.

Conversamos com Heller sobre este novo trabalho e os desafios de produzir uma ópera em Santa Catarina.

Como surgiu a ideia de fazer uma ópera?

Após muitas apresentações do espetáculo Rock’n Camerata (em novembro teremos a 10ª edição) e levando em consideração o grande número de óperas clássicas já interpretadas pela Camerata Florianópolis, o maestro Jeferson Della Rocca me convidou a compor algo que mesclasse esses dois gêneros. Nasceu então este trabalho, uma ópera-rock (embora o tratamento dado à orquestração tenha deixado o estilo mais para o clássico que para o rock). Creio que o resultado atingido teve um alto grau de originalidade do ponto de vista estético.

Como foi o processo de adaptação de Frankenstein para o formato de ópera?

Me ative ao original de Mary Shelley, explorando ao máximo sua profundidade literária e filosófica (diferente das adaptações para o cinema, que quase sempre fizeram dessa história um conto de terror). O livro é denso, e também a música se tornou densa (afinal, trata-se de uma tragédia). No palco, vozes líricas se mesclaram às vozes do rock, e os drives vocais típicos do rock deram ainda maior dramaticidade à performance.

Há planos de fazer outras adaptações?

Sim! Adorei fazer esse trabalho, e já estou em busca de um tema para a próxima ópera (minha dúvida é quanto ao formato: se será uma ópera clássica, um musical ou outra ópera-rock). Enquanto isso, estamos trabalhando para apresentar Frankenstein em outras cidades do Brasil e do exterior.

Como foi a seleção de elenco?

Precisávamos de vozes muito específicas, que transitassem entre o clássico e o rock. Alguns profissionais com esse perfil já conhecíamos e convidamos diretamente, outros nos foram indicados por colegas da área. No caso do coro, houve um teste de seleção.

Há profissionais já preparados para interpretar em musicais no Brasil?

Muitos, e de excelente qualidade. Uma de nossas dificuldades, porém, foi que Frankenstein não é um musical, mas uma ópera-rock; embora sejam formalmente parecidos, há grandes diferenças estilísticas, especialmente em relação à estética sonora.

Um dos atores, Alírio Netto, já tem histórico de apresentações nesta área; ele trouxe dicas para a adaptação de Frankenstein?

Alírio Netto é um grande artista e, sim, trouxe muitas contribuições para esta produção. Aliás, tivemos o privilégio de contar com um elenco fantástico, todos com enorme profissionalismo e experiência, e cada um deles – sem exceção – colaborou com valiosas ideias.

Alírio Netto, no papel da Criatura

Quanto tempo durou o processo de preparação dos atores e músicos até o espetáculo ir para o palco?

Os cantores começaram a estudar seus papéis aproximadamente seis meses antes da estreia; os dois últimos meses foram de ensaios intensivos, tanto musicais quanto cênicos.

Quais foram os principais desafios na produção de Frankenstein?

Creio que o maior desafio foi encontrar a sonoridade específica da obra, que é bem mais clássica (devido principalmente à densa orquestração) que a maioria das óperas-rock.

A Camerata tem vários projetos que tornam a música clássica mais acessível. Pode ocorrer este movimento com a ópera também?

Acredito pessoalmente em facilitar o acesso à arte, não em facilitar a arte. Tornar acessível não deve significar popularizar a qualquer preço: é preciso ter critérios e bom senso. A Camerata sempre zelou muito pela qualidade artística de suas produções, e se cativou um público fiel e crescente nestes 25 anos de atividade ininterrupta foi justamente porque soube respeitar seu público.

Você acha que projetos como este ajudam a levar o nome de Santa Catarina como um espaço de produção cultural?

As produções catarinenses vêm crescendo tanto em quantidade quanto em qualidade: temos excelentes artistas e muitos trabalhos autorais de peso. Fico feliz em poder contribuir com esta ópera.