Amazônia, parte 1: Nós, do Sul, é que estamos muito longe

Deveríamos ser mais humildes e menos espalhafatosos. A Amazônia nos redimensiona, e faz isso com surpreendente afeto

Amazônia
Foto: Zig Koch/WWF-Brasil

Quase todos sabem a diferença: Amazonas é um Estado brasileiro, enquanto que Amazônia denomina toda a floresta, cuja maior parte fica no Brasil, mas se estende por outros países também. É desta Amazônia que falo hoje e talvez continue em outras edições, pois tudo é tão imenso por lá que não há como resumir num único texto.

Passei três dias navegando pelo Rio Negro, conhecendo comunidades indígenas e ribeirinhas. Em um pequeno barco, me embrenhei entre os igarapés como se tivesse licença para entrar num sonho que não era meu. Tocava as árvores com os dedos, desviava dos cipós, sentia o perfume das flores exóticas. Nadei ao lado de botos cor-de-rosa. Fui ao encontro do Negro com o Solimões, que não se misturam, mantendo cada rio a sua cor, a sua temperatura, a sua densidade. Comi peixes e frutas que inauguraram em mim um novo paladar. Escutei histórias reais e também as lendas que a floresta inspira. Percebi na mata gradações de verde que as cartelas de tintas desconhecem. No escuro da noite, no meio do rio, observei uma sequência de estrelas cadentes num céu pontilhado de luzes – o motor do barco foi desligado, nos calamos e o silêncio absoluto se encarregou do êxtase. Achei que tinha viajado para os confins do meu país, mas não. Minha noção de distância se alterou. Nós, do Sul, é que estamos muito longe.

A Amazônia é um santuário, onde a natureza é fonte de tudo que importa: ar puro, alimento saudável, sobrevivência. Índios e caboclos dedicam-se a preservar seus valores e costumes, e extraem da água e do mato tudo o que necessitam para comer, se proteger e se divertir. Como nada é perfeito, muitos se sentem atraídos por esses aparelhinhos eletrônicos que levamos em mãos e que são considerados símbolos de modernidade, a ponto de alguns comprarem smartphones mesmo não havendo sinal onde vivem – usam para o básico. Menos mal. O básico basta.

Simplicidade e sofisticação. Emoções genuínas, beleza sem artifícios, poder sem empáfia. A Amazônia, com toda sua grandiosidade, é discreta. Não se impõe, existe. Ajuda o planeta a respirar. É mãe, acolhe. Terra de gente risonha, que reparte o que sabe e tem apego pelo o que é natural. O sol cai, alaranjado. As águas caudalosas espelham a vegetação das margens. A samaúma, árvore colossal que atinge até 50 metros, está ali há 500, 600 anos, e resistirá outras tantas centenas, alertando para o nosso tamanho: somos pequenos e passamos ligeiro pela vida. Deveríamos ser mais humildes e menos espalhafatosos. A Amazônia nos redimensiona, e faz isso com surpreendente afeto. É jungle para exploradores, não para os íntimos. Para quem ali vive, é uma casa, um lar estendido ao infinito, onde o céu e a terra se encontram.

Deslocados estamos nós, os ansiosos, os aflitos das selvas urbanas. Sem desmerecer as cidades que nos fazem felizes a seu modo, passei a entender que somos uma maioria de estrangeiros dentro do próprio país, vivendo longe da essência primária. Os confins são aqui.

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