Coluna de Cinema: Veja as estreias e uma entrevista com Leonardo Reis, ator da comédia brasileira “Altas Expectativas”

Se Duas de Mim carregava uma fórmula nada ousada e conhecidíssima do público que abraça comédias da Globo Filmes, Altas Expectativas tenta algo diferente: nossa representação na sociedade e nos palcos. Inspirada no comediante Leonardo Reis, conhecido como Gigante Léo, a história de Décio carrega o intimismo que alguns filmes americanos deste ano carregavam ao mesclar stand-up e vida pessoal.

Como as pessoas representam no palco e como elas são realmente na vida? Alguns, personagens completos. A maioria, nem tanto. Há sempre algo verdadeiro na persona de quem escreve algo cômico. Algo crível. A sequência em que um “comediante” amador tenta brincar com o nanismo do protagonista e recebe uma sequência de ironias melancólicas é finíssima. E se Leo é suficientemente eficiente para oferecer múltiplas camadas ao seu personagem, passando por sentimentos leves e pesados, Camila Márdila vai se especializando em papéis que clamam por uma indiferença sóbria e real. Não é um filme brilhante, e o momento em que Lena se assusta com Décio fantasiado de palhaço chega a ser infantilóide, mas é o bastante para colocar Altas Expectativas num bom patamar de qualidade.

Confira a entrevista com o protagonista da comédia brasileira, Leonardo Reis:

Há um cenário americano de comediantes de stand-up se entregando a obras bastante intimistas. Exemplos como Louis C.K., Mike Birbiglia, Henry Phillips e tantos outros. Você acha que alguns comediantes brasileiros podem seguir a mesma linha e entregar essas obras contundentes sobre vida e palco, puxando o seu filme como exemplo?

Ninguém nunca me fez essa pergunta antes (risos). Nunca parei pra pensar, pra falar a verdade. Acho que sim. Quer dizer, eu acho que seria muita pretensão achar que nosso filme serviria de inspiração para obras futuras, neste sentido, aqui no Brasil. Mas é uma boa pergunta. Há cada vez mais essa coisa da comédia com a realidade como pano de fundo. O americano tem muito isso: fazer comédia com o cotidiano. Aqui, no Brasil, há vários tipos de comédia. Tem o caricato também, que é bonito, não vai morrer nunca. Mas tem aquele com tom mais naturalista, realista, como Tá no Ar, Zorra Total. Acho que é uma tendência, sim. E é bacana, que em épocas como a nossa consigamos extrair leveza de períodos tão ruins.

É seu primeiro papel como protagonista, embora já tenha participado em O Concurso, do Pedro Vasconcelos. Além disso, a representação sempre foi algo constante na sua vida, né? Isso ajuda? Ir do palco para as telas?

Sim. Participei de O Concurso, do Pedro. Fui coadjuvante, foi algo bem legal, mas ser protagonista assim e com esse elenco é muito louco. Tipo, são linguagens diferentes no teatro e no cinema. O teatro é mais pra fora, você maximiza tudo, no cinema é tudo muito intimista. Você está completamente exposto, tem o close, a câmera na sua cara, e o público percebe qualquer outro tipo de pensamento que você tiver ali.

Você falou em exposição e, de certa forma, o Décio é baseado em ti. Isso fez você mais exposto ainda, na sua percepção?

Não, não. A história em si (o homem que é preparador de cavalos e se apaixona por uma mulher mais alta que ele) não é a minha. A essência é. Já que me casei com a Carol, que é pedagoga e nos apaixonamos em razão do humor. Ela era minha fã. Começamos a trocar uma ideia. O amor aconteceu. O Décio é mais tímido que eu. Eu era cara de pau. Acho que a questão que ajuda no cinema, naquela diferenciação com o teatro, é a familiaridade só. Porque tínhamos um elenco extraordinário. A Camila é uma atriz fantástica e ser humano também. A Maria Eduarda… Eu estava cercado de monstros. Não podia fazer feio (risos). Imagino que o lado bom de contracenar com alguém ruim seja que você pode se destacar (mais risos). Aqui, não.

Confira o trailer:

Nesta semana, igualmente, o brasileiro A Menina Índigo, dos criadores de Nosso Lar, chega às plataformas Now, Vivo Play, Google Play e Itunes. A trama gira em torno de uma menina de 7 anos, que é interpretada por Letícia Braga, e que apresenta um comportamento “fora do padrão”. Acontece que Sofia faz parte de uma nova geração de crianças chamadas de índigos, que, acredita-se, tem potencial transformador na sociedade. A ótica de Wagner Assis sobre a vida é bem óbvia, como mostra seus três filmes (Nosso Lar, A Cartomante e, agora, A Menina Índigo). Para ele, a humanidade tem um futuro prazeroso garantido. Seus personagens são carregados de dons e otimismo.

Outra estreia da semana é o americano Em Busca de Fellini, de Taron Lexton, que expõe o sonho de uma jovem de 20 anos que tem a oportunidade de visitar a terra em que seu diretor favorito fazia seus filmes: a Itália. Já o documentário brasileiro Corpo Delito, da Vitrine Filmes, nos insere numa realidade pouco confortável – as nossas próprias prisões. O filme fala sobre um homem que sai da cadeia, mas que precisa continuar usando uma tornozeleira eletrônica. A câmera de Pedro Rocha é sempre próxima dos personagens e os ambientes que frequentam, pouco interferem no discurso.

Próximos também ficamos de Lucky, um homem de 90 anos que vive no interior dos EUA na sua rotina não muito atraente. Focando no isolamento humano do personagem de Harry Dean Stanton (excelente!), John Carroll Lynch estreia na direção explorando um retrato daqueles hillbillys que estão sempre nos bares de beira de estrada . “Nada é permanente”, afirma Lucky (um nome de bela ironia). Estamos renegados a vivenciar pequenas coisas, experimentar pequenas coisas. Como a festa em que Lucky começa a cantar. Lynch sempre foi um ator gigante, mesmo que na maior parte das vezes coadjuvante. Como diretor, ele começa fazendo justiça.

A última estreia é o filme de Pablo Giorgelli, o mesmo do bom Las acacias, que volta a dirigir um filme depois de um hiato de seis anos. Invisível acompanha o drama de Ely, uma jovem de 17 anos que descobre que está grávida de seu chefe. Ela precisa, então, fazer uma decisão que mudará pra sempre sua vida: ficar ou não com o filho.

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