Anticoncepcionais masculinos: estudos enfrentam desafios, mas evoluem

Pelo menos 10 opções estão em desenvolvimento. Há entraves técnicos, econômicos e culturais

Foto: Ricardo Wolffenbüttel / Agencia RBS

*Júlia Zaremba

O desenvolvimento de métodos contraceptivos para homens, que começam a surgir na forma de pílula e gel, avançam em universidades e centros de pesquisa pelo mundo. Mas os estudos ainda esbarram em desafios técnicos, econômicos e culturais.

Os homens têm, hoje, só duas formas de evitar uma gravidez: realizar uma vasectomia ou usar camisinha (método que protege também contra doenças sexualmente transmissíveis, então médicos não recomendam que seja substituído). Há quem arrisque o coito interrompido, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera esse um dos métodos menos efetivos de contracepção.

Já as mulheres têm à disposição um catálogo maior de opções, que inclui a pílula, o adesivo, o DIU (dispositivo intrauterino) e o diafragma – que, quase sempre, geram efeitos colaterais indesejados.

Atualmente, existem pesquisas de contraceptivos masculinos em andamento com métodos hormonais e não hormonais. Há ao menos 10 opções em desenvolvimento, em países como Estados Unidos, México e China, segundo levantamento da reportagem.

Os hormonais têm como objetivo inibir a espermatogênese, ou seja, a produção do espermatozoide, explica Erick Silva, professor do Departamento de Farmacologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor de um estudo sobre o assunto. Com menos de 1 milhão de espermatozoides por mililitro de esperma, o homem é considerado infértil, segundo a OMS.

Os contraceptivos da categoria são feitos a partir da combinação de um andrógeno (hormônio que dá origem às características masculinas), como a testosterona, e um progestágeno, derivado sintético da progesterona (hormônio esteroide). Os dois componentes promovem a redução dos hormônios que estimulam a produção de testosterona no testículo, essencial para a formação de espermatozoides.

Os estudos dessas drogas hormonais para homens começaram antes mesmo do lançamento da pílula feminina, lançada em 1960. Há registros de experimentos feitos com detentos em uma penitenciária no estado de Oregon, nos EUA, na década de 1950.

A injeção de hormônios por via intramuscular foi uma das primeiras alternativas testadas por cientistas, diz Silva. Como era um método muito doloroso, passaram a investir em drogas orais, que ganham cada vez mais forma – algumas já estão em fase de estudos clínicos.

Uma delas é o DMAU (sigla em inglês para undecanoato de dimetandrolona). A primeira fase de testes da droga, cujo propósito era avaliar a sua segurança, foi concluída no ano passado e teve resultados positivos. Foi realizada na Universidade de Washington e na Universidade da Califórnia em Los Angeles e contou com a participação de cem homens, de 18 a 50 anos.

A nova etapa de testes, que consiste em três meses de uso diário da pílula pelos voluntários, está prevista para ser concluída até o início de 2020, disse Stephanie Page, professora de Medicina da Universidade de Washington. O objetivo, agora, é checar se o composto consegue inibir a produção de espermatozoides.

Gel absorvido pela pele será testado nos EUA

O DMAU tem uma “pílula irmã”, a 11b-MNTDC, que está um passo atrás nos testes, liderados por Page – os resultados foram apresentados em março deste ano nos EUA. Os homens não relataram efeitos colaterais graves e houve sinais de redução na produção de espermatozoides.

Outra alternativa hormonal é o gel NES/T, que combina o progestágeno acetato de segesterona com testosterona. A proposta é que seja aplicado nas costas e nos ombros e absorvido pela pele. O Departamento de Saúde dos EUA anunciou, em novembro do ano passado, que dariam início a testes clínicos do gel com cerca de 420 casais.

O ponto negativo dos componentes hormonais, assim como ocorre no caso dos métodos femininos, são os efeitos colaterais. Acne, variação na libido, alterações de humor, dor de cabeça e dificuldades de ereção foram alguns apresentados após os estudos.

— O desconhecimento dos efeitos a longo prazo na fertilidade e o período de latência (tempo que demora para começar a fazer efeito) são outros obstáculos que precisam ser superados — diz Marcelo Vieira, coordenador da Sociedade Brasileira de Urologia.

Diante dessas dificuldades, cientistas decidiram apostar em opções sem hormônios. Uma linha age na espermatogênese – é o caso do H2 Gamendazole e do JQ1. O primeiro, em fase pré-clínica, é desenvolvido pelas universidades do Kansas e de Minnesota. Já o efeito do segundo foi descoberto enquanto pesquisadores da Universidade Harvard buscavam uma droga contra o câncer.

A outra linha de métodos não hormonais busca inibir alguma função do espermatozoide já formado, como a motilidade, ou bloquear a saída deles do ducto deferente (como uma espécie de vasectomia sem bisturi), impedindo que fecunde o óvulo da mulher.

A estratégia é atraente, diz Erick Silva, devido ao curto período de latência e por não influenciar na produção das células reprodutoras. O desafio desse método é conseguir bloquear milhões delas.

Exemplos nessa seara são o Eppin (pílula que atua em uma proteína na superfície do espermatozoide), o Vasalgel (hidrogel injetado no ducto deferente, tubo que os espermatozoides atravessam, que impede que as células reprodutoras nadem até o óvulo) e o Risug (desenvolvido pelo médico indiano Sujoy Guha e que atua de forma semelhante ao Vasalgel).

Há ainda um outro método em estudo na Universidade Nacional Autônoma do México focado nos canais de cálcio (CatSper) e potássio (Slo3), necessários para a regulação da mobilidade do espermatozoide.

Faltam diretrizes e faltam voluntários

Hoje, os estudos dos métodos masculinos de contracepção se concentram em universidades e pequenas indústrias farmacêuticas, afirma o professor Erick Silva. As grandes marcas ainda priorizam os femininos.

— Pela questão de custo-benefício, talvez a indústria ache que não valha investir milhões em algo com chance de falha grande — diz o pesquisador.

O desinteresse pode estar relacionado também a uma falta de diretrizes que devem ser seguidas nos testes, estabelecidas por parte das agências reguladoras, e de conhecimento sobre o interesse do público nos anticoncepcionais, afirma Arthi Thirumalai, professora assistente da escola de Medicina da Universidade de Washington envolvida nas pesquisas do DMAU.

E também não é fácil atrair voluntários.

— Precisamos encontrar pessoas que não querem filho agora, mas que aceitem a possibilidade de ter, caso o método falhe — afirma Thirumalai. — A incerteza é a parte mais complicada. Hoje, todos gostam de planejar tudo.

No fim das contas, o maior desafio é produzir um método contraceptivo com poucos efeitos colaterais e que seja reversível.

— Senão, o cara faz uma vasectomia, que é melhor — aponta Jorge Hallak, urologista do Hospital das Clínicas, vinculado à Universidade de São Paulo (USP).

Esse último ponto é especialmente delicado. A mulher já nasce com óvulos para a vida inteira, então as pílulas femininas só inibem a ovulação. Dessa forma, quando o uso da droga é interrompido, a mulher volta a ser fértil. O mesmo ocorre com os métodos sem hormônios.

Já os homens produzem espermatozoides todos os dias, o que os tornam mais frágeis do ponto de vista reprodutivo, diz Hallak. Além de drogas, álcool e até poluição podem impactar a fertilidade masculina.

Um aliado contra a gravidez na adolescência

O urologista brasileiro vê com bons olhos as iniciativas em estudo, principalmente porque poderão ajudar a evitar a gravidez na adolescência – homens jovens seriam um dos principais alvos desses contraceptivos.

— As mulheres sempre foram consideradas as maiores responsáveis pela sua reprodução e por evitá-la — diz a ginecologista Halana Faria, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, criado em 1981. — A ideia de compartilhamento de oportunidade de contracepção, de divisão de responsabilidade, é recente.

Para Halana, os anticoncepcionais masculinos não devem substituir os femininos, mas somar-se a eles. Ao menos em um primeiro momento, já que a mudança de paradigma gera uma certa desconfiança.

— Uma mulher que não está em uma relação estável e se relaciona eventualmente com um cara vai contar com a responsabilidade dele sobre o que acontece no corpo dela? — questiona. — Se pensar que não é o homem que engravida, talvez valha a pena para a mulher correr alguns riscos associados aos anticoncepcionais femininos.

Contraceptivos em estudo

Hormonais

  • Objetivo: inibir a espermatogênese, ou seja, a produção do espermatozoide
  • Exemplos: DMAU, 11b-MNTDC, NES/T

Não hormonais

  • Objetivo 1: inibir a espermatogênese
  • Exemplos: H2 Gamendazole e JQ1
  • Objetivo 2: bloquear alguma função do espermatozoide já formado, como a motilidade
  • Exemplos: Eppin e os que focam nos canais de cálcio (CatSper) e potássio (Slo3)
  • Objetivo 3: bloquear a saída dos canais deferentes
  • Exemplos: Vasalgel e Risug

Problemas

  • Efeitos colaterais (acne, variação de libido e humor)
  • Risco de afetar a produção de espermatozoides
  • Período de latência, ou seja, tempo que demora para começar a fazer efeito
  • Falta de financiamento pelas grandes indústrias
  • Ideia de que contracepção cabe à mulher

Métodos disponíveis hoje

  • Vasectomia: procedimento que bloqueia a passagem dos espermatozoides do testículo para a uretra e o sêmen, ao cortar os canais deferentes
  • Camisinha: substituição não é recomendada, já que protege contra doenças sexualmente transmissíveis

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