Exclusiva: Antônio Fagundes fala sobre carreira, personagens e a peça que traz para SC

Antônio Fagundes
Antônio Fagundes

* Por Cristiane Cordioli

A ligação é feita no horário combinado, 17h. Do outro lado da linha, uma voz mais que conhecida atende ao telefonema para falar sobre a peça Baixa Terapia. É Antônio Fagundes, um dos protagonistas da história de três casais que acabam envolvidos em uma sessão em grupo, onde compartilham a experiência dos relacionamentos e os desafios da vida a dois. Solícito, conversa com tempo livre, contando, com uma certa satisfação, como descobriu o texto do escritor argentino Matias Del Federico, de onde vem a harmonia do elenco, que conta, também, com Bruno Fagundes, Alexandra Martins, Mara Carvalho, Ilana Kaplan e Fábio Espósito (da esquerda para a direita na foto abaixo), e por que o convite para assisti-lo neste fim de semana no Teatro do CIC, em Florianópolis, na passagem da turnê pelo Estado, é imperdível. A conversa flui. Fagundes fala, também, sobre a carreira, os 69 anos recém-completados e como consegue se despir dos personagens que dá vida como quem termina um relacionamento. Confira a entrevista com o ator:

Como o texto do escrito argentino Matias Del Federico virou uma peça encenada por Antônio Fagundes?
Uma das coisas mais difíceis que se tem é achar um bom texto de teatro. Para você ter uma ideia, a partir da estreia de Baixa Terapia já comecei a ler textos procurando minha próxima produção que será, talvez, daqui a dois anos. É um desafio encontrar qualidade dramatúrgica, algo que seja bem escrito, atual, que tenha algo a dizer para a plateia, que seja oportuno. No caso de uma comédia, então, é mais difícil ainda, porque além de tudo tem que ser engraçado. Eu estava procurando um texto assim há anos. Daí fui a Buenos Aires resolver uns problemas de uma produção anterior e pedi a indicação de um espetáculo que estava fazendo sucesso por lá. Me indicaram esse. A primeira coisa que eu faço é gostar como público. Então eu sentei, me diverti, ri muito, me surpreendi no final e sai de lá imediatamente atrás do escritor e consegui comprar os direitos para fazê-la.

O fato de o elenco ser composto por pessoas que têm uma história de relacionamento com você fora de cena (Mara Carvalho é ex-mulher, Alexandra Martins é a atual e Bruno Fagundes é filho do ator) causa uma certa curiosidade do público. Funciona?
Bom, a gente tem uma harmonia fora de cena. Não teria como levar para o palco se não nos relacionássemos bem fora dele. Um relacionamento bom fora, nem sempre quer dizer que funcionará em cena. Nós, na verdade, tivemos muita sorte de nos darmos bem e ainda sermos todos profissionais com o mesmo tipo de mentalidade, o mesmo tipo de atitude. Então, está dando muito certo. Já estamos há mais de um ano juntos. E fazer teatro é uma coisa que se a gente já não fosse íntimo o suficiente, cria uma intimidade muito grande, ficamos muitas horas juntos. Agora, viajando, isso vai se multiplicar. Mas eu tenho certeza que nós ainda vamos ficar muitos anos juntos, e muito bem.

E existe um segredo para conseguir harmonia com mulheres de diferentes fases da sua vida vivendo uma história justas no palco?
Não saberia falar (risos). Eu não escreveria um livro de autoajuda.

Foto: Caio Gallucci/Divulgação

Na peça, são três gerações buscando saídas para conflitos em seus relacionamentos, certo? Na sua opinião, em que fase da vida lidamos melhor com nossos sentimentos? E da maneira mais divertida? E mais inteligente?
Eu acho que isso depende muito da formação da pessoa, do tipo de visão que ela tem da vida, do mundo. Você pode ter 15 anos e ser muito mais sábio que um senhor de 80. Isso não tem idade. Tem, sim, o tipo de formação familiar, de estrutura. Tudo isso ajuda você a se posicionar melhor.

Com mais de 50 anos de carreira, foram muitos os personagens que ganharam vida com a sua interpretação. Existe um desapego em relação aos finais de novelas, de temporadas de teatro. Os personagens deixam saudade? É preciso de terapia para resolver o fim deste tipo de relacionamento também?
Eu nunca fiz terapia. Acho que, como na vida, um personagem preenche o vácuo do outro. Uma pessoa, às vezes, tem várias histórias de amor. Quando elas terminam, ela não deixa de continuar seu caminho. Acaba um personagem, encerra um ciclo da vida. Parte para outro. Para ser feliz.

E como trabalhar diferentes personalidades e sair com a própria história ilesa. Sem confundir personagem com vida real?
É bom que isso não aconteça. Se eu fosse incorporar os 200 personagens que eu fiz na minha vida, eu acho que seria um pouco esquizofrênico. Imagine você se eu faço um assassino e incorporo isso na minha vida? Ia me criar alguns problemas, né? Isso para mim é uma mitologia, uma mistificação do trabalho do ator. O ator tem que ser extremamente intelectual. Ele não pode se deixar envolver psicologicamente com cada personagem que faz, por que ele vai levar a família dele à loucura e ele mesmo vai enlouquecer, né?

A peça é uma comédia. É um gênero que exige uma resposta imediata do público, não?
Não sei por que a comédia é sempre considerada gênero de segunda categoria. Falam mal. Tratam como uma arte menor. Mas é o gênero mais difícil de fazer, é o que exige mais do ator, mais conhecimento técnico, envolvimento. O ator tem que ter um domínio absoluto sobre tudo o que ele está fazendo, sobre o corpo, a voz, sobre o tempo, o momento que ele tem que colocar a piada e ao mesmo tempo prestar atenção na reação do público a cada segundo. O ator que sabe fazer comédia, na minha opinião, sabe fazer tudo.

E você gosta de fazer comédia?
O que você acha? (risos)

Você recém completou 69 anos e divide o palco com seu filho, Bruno. Como é ver o tempo passar compartilhando a experiência de atuar com alguém que você viu crescer e que já está quase com 30 anos?
Isso não existe. Quando toca o terceiro sinal e você entra em cena, deixa de ver mulher, ex-mulher, você vê colegas de trabalho, em uma função específica em cena que deve ser cumprida. Se você parar cada segundo para lembrar, ah, troquei fralda, peguei no colo, você não fará a peça, entendeu? Se for para fazer isso, parar para pensar, melhor ficar em casa vendo tevê, né?

Certa vez perguntaram para o jogador Romário como ele estava encarando a passagem dos anos e ele respondeu “quem corre é a bola, não o jogador”. A afirmação faz algum sentido para o Antônio Fagundes?
(Risos) No meu caso, tenho que correr junto com a bola, não tem como a bola ir na frente não. Na verdade, às vezes temos que correr um pouco à frente da bola até.

O enredo
Na comédia Baixa Terapia, três casais são apresentados, um após o outro. Eles chegam para uma sessão de terapia. Quando se encontram, descobrem que a psicóloga não foi e terão que conduzir a sessão em grupo. Na sala, encontram envelopes numerados, repletos de instruções de como devem conduzir a consulta especial. O objetivo é que todas as questões sejam resolvidas em grupo. A partir daí, vêm à tona queixas, confissões, suspeitas, revelações, verdades e mentiras. Cada envelope trata de temas para cada um dos casais. O ambiente vai esquentando até se tornar quase caótico. Não são todos que estão dispostos a se abrir para falar dos assuntos que os afligem e aos seus parceiros, já que ocultam algo que jamais revelariam. No final, a sessão de terapia se converte em uma armadilha com um final inesperado.

Serviço
O quê: peça “Baixa Terapia”
Quando: domingo – 29 de abril
Horário: 18h e 21h (sessão extra)
Onde: Teatro do CIC, Florianópolis
Ingressos: www.blueticket.com.br
Importante: não será permitida a entrada após o início do espetáculo.


Leia também:
Marcos Piangers: um texto irresponsável

Martha Medeiros: que coisa é essa?