Quantos negros você vê na escola, no trabalho, na praia? Se tem territorialidade, tem apartheid

O negro pobre sofre mais que o branco pobre. O negro pobre é mais perseguido, agredido, executado que o branco pobre. A absurda morte de um negro asfixiado por um segurança de supermercado confirma

Foto: Pexels

Na minha infância, não tive nenhum amigo negro. Estudei durante 11 anos no mesmo colégio e não tive uma única colega negra – e também nenhum professor. Nos prédios em que morei, zero. Na praia? Puxa, na praia haveria negros, óbvio. Mas na Guarita, em Torres, que era uma espécie de Califórnia da elite bronzeada do Rio Grande do Sul, nos anos 70, não tinha, não. Na faculdade e nas agências de propaganda em que trabalhei, era raridade. Se havia, não frequentei suas casas nem fiz festa junto.

Pra completar a vergonha, sou madrinha de uma garota negra que a última vez que vi foi em seu casamento, quase 20 anos atrás. Depois ela se mudou para o Paraná e perdemos o contato.

A poeta e atriz Elisa Lucinda é uma honrosa exceção. Outro dia, num vídeo que viralizou nas redes, minha amiga sentenciou: ”se tem territorialidade, tem apartheid”. Não há como ficar em silêncio ao escutar esse balaço.

Por muito tempo, coloquei a questão racial sob o mesmo guarda-chuva da desigualdade social. Custei a entender que era um subterfúgio para não chamar o problema pelo nome que ele tem.

O negro pobre sofre mais que o branco pobre. O negro pobre é mais perseguido, agredido, executado que o branco pobre. A absurda morte de um negro asfixiado por um segurança de supermercado confirma. Negro pobre tem menos chance de defesa do que o branco pobre. Então não é uma questão socioeconômica. É racial.

Eles não andaram de bicicleta comigo, não foram meus colegas de aula, não tomaram banho de mar ao meu lado e não me namoraram, e a razão disso não é apenas porque não tinham dinheiro, mas porque não tinham acesso ao mesmo mundo que eu– ainda que fosse o mesmo mundo em que vivessem.

Felizmente, hoje os negros não são vistos apenas em paradas de ônibus, cozinhas e bailes funk. Estão nos comerciais de tevê, nas novelas, nos telejornais, nos editoriais de moda, ocupando um espaço de visibilidade que lhes era vetado. E também nas redes sociais – e só por isso já compensa fazer parte deste universo esquizofrênico de fake news, julgamentos sumários e vaidade doentia.

Há gente séria discutindo o preconceito. Há movimentos surgindo. Não dá mais para ficarmos alheios. É preciso colocar o dedo na nossa própria cara em frente ao espelho e se comprometer a ser um novo “eu”, que é o único jeito de inaugurar também um novo país.
Demorei a entrar nas redes e hoje acredito que, em meio a tanta besteirada, elas nos
ajudam a evoluir, desde que a gente não siga apenas os sócios do nosso clube e escute a voz da diversidade.

É nossa responsabilidade criar uma nova cidadania, começando por interromper a propagação de ideias criminosas, incitações à violência ou qualquer situação que nos mantenha segregados. Hora de compreender que somos todos cúmplices do Brasil ser atrasado como é.

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