Aquilo que ninguém conta sobre o puerpério

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Já falei sobre libido aqui e mais precisamente sobre disfunções sexuais. E de fato esse tema nunca tem fim porque em cada fase da vida percebemos diferenças que poderão condicionar mudanças profundas na nossa sexualidade e na nossa libido. O enfoque de hoje vai para uma das maiores queixas do consultório no pós-parto: a libido.

Inúmeros estudos tentam esclarecer esse tema ainda cheio de dificuldades e motivo de muita divergência no casamento e até separações. De fato, mulheres e homens vivem momentos muito diferentes no pós-parto e a sociedade não é culturalmente preparada para respeitar e entender isso. Nós não entendemos, os homens também não.

Nas consultas com o bebê no colo, recém-nascido sempre vem a pergunta em voz baixa – doutora, o marido quer saber quando eu posso ter relação sexual, mas, eu vou dizer que tu não liberaste, tudo bem?

Oras, desde que quando sou eu que preciso liberar a sua vontade e o que você fará com o seu corpo. Para tudo! Eu devo orientar o tempo de abstinência seguro pós-parto ou pós cesárea, os cuidados com a relação sexual agora, o anticoncepcional se for o desejo do casal mas, eu não preciso mentir sobre desejo.

Se você não tem desejo nesse momento, não se julgue menos mulher por isso e nem se crucifique.

Precisamos respeitar as fases e os momentos da vida. Como depois de uma noite em claro, do seio doendo, do banho rápido, da mente se cobrando, da vizinha buzinando, da amiga palpitando, do corpo diferente no espelho você terá ainda desejo sexual? Nada de errado com quem tem, porém é organicamente aceitável uma diminuição considerável na libido.

Hormonalmente isso também é explicado! A amamentação estimula a liberação de prolactina que suprime a libido. Ainda assim, psicologicamente o blues puerperal (aquela tristeza pós-parto) pode atrapalhar e muito essa fase.

Quanto tempo dura? Depende, de muita coisa e de você ou de vocês.

Os estudos brasileiros mostram a presença de 70-80% de disfunção sexual no puerpério com destaque absoluto para o desejo sexual. Portanto, você não é um problema!

A dica é falar sempre e manter um excelente diálogo, entre o casal, entre o médico, antes, durante e depois da gestação. A sexualidade faz parte do relacionamento e é parte fundamental dele. Quem sabe experimentar uma terapia de casal, uma terapia sexual se for necessário. Se cobrar menos e colocar o marido dentro dessa nova fase, com suas mudanças, suas tarefas, suas dificuldades e porque não suas novas alegrias e conquistas. Dê um tempo para o seu tempo!

Lembre-se que o bom para você pode ser muito diferente daquilo que sua amiga julga e que qualidade pode ser muito melhor que quantidade. Não espere que tudo volte como era no passado em poucos dias, você também não é mais aquela mulher do passado.

Nesse tempo todo e em meio a todas as dificuldades, divida suas angustias e se doe literalmente de corpo e alma aos poucos e bons momentos a sós e não deixe de tê-los, eles já são fundamentais na vida de um casal sem filhos, imagine na de um casal com filhos.

Por último e não menos importante, não se auto medique nem siga receitas mirabolantes da internet. A reposição hormonal do site não conhece suas contraindicações e nem sua fase da vida, você pode estar fazendo um mal para você e para o seu filho. Converse com seu médico sobre as suas dificuldades, seus desejos e suas expectativas e tracem metas e tratamentos individualizados capazes de trazer prazer aos novos prazeres da vida.

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Dra. Luisa Aguiar
Luísa Aguiar da Silva Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela AMB Especialista em Uroginecologia pela Unifesp Professora da disciplina Materno Infantil da Universidade do Sul de Santa Catarina Proprietária junto com a Dra Raquel Aguiar – minha mãe – da Clínica Urogine