Arte aborígene em cartaz no Masc

Clay D'Paula fala sobre "O Tempo dos Sonhos: Arte Aborígene Contemporânea da Austrália", em cartaz até o dia 3 de junho. Foto: Divulgação

A arte aborígene é a tradição artística contínua mais antiga do planeta, mas foi só nos anos 1970 que passou a ter reconhecimento internacional e ganhar galerias de arte e museus. Desenhos que antes eram pintados no corpo e no chão com pigmentos terrosos passaram a ser reproduzidos em telas com tinta acrílica e outros materiais. Até o dia 3 de junho, Florianópolis recebe a exposição O Tempo dos Sonhos: Arte Aborígene Contemporânea da Austrália, no Masc, com obras de artistas renomados como Rover Thomas, Tommy Watson e Emily Kame Kngwarray – esta última, uma das estrelas da mostra, começou a pintar aos 79 anos e é considerada uma das maiores pintoras expressionistas do século XX. Bati um papo com Clay D´Paula, mineiro que morou nove anos na Austrália, onde se especializou em história da arte, e que assina a curadoria com os australianos Adrian Newstead e DjonMundine. Confira:

O texto da exposição diz que nos últimos 40 anos a arte aborígene deixou de ser algo etnográfico para ser reconhecida como um movimento artístico contemporâneo. Como aconteceu essa mudança?

É muito complexo. A mudança aconteceu por camadas. A partir do momento em que as obras caíram nas graças de colecionadores, começaram a entrar em museus renomados e a participar de bienais, tudo isso contribuiu para a valorização e valoração da arte aborígene. Hoje, essas obras não são artesanatos. A qualidade estética é indiscutível. É uma arte de resistência, de protesto, de afirmação. Os povos indígenas correspondem a 2,5% da população da Austrália e falam 145 línguas, sendo que 110 delas correm risco de desaparecer. A arte foi uma forma que eles encontraram para perpetuar sua cultura, cujos primeiros registros datam de 50 mil anos. Desde então, eles vêm perpetuando essa linguagem através da arte. E isso se expandiu a partir da década de 1970, quando toda essa riqueza visual foi transposta para suportes modernos.

Algumas obras trazem a questão política, como O Soldado Britânico Narcisista de Gordon Syron, que remete ao tempo em que colonizadores envenenaram a água para ocupar as terras dos aborígenes. E a exclusão ainda faz parte da realidade desses povos. Como a arte ajuda nessa questão?

Nem tudo são flores, é muito delicado. Não existe uma fórmula a seguir, mas o modelo australiano na questão da arte indígena é interessante. Lá, existem mais de 100 cooperativas artísticas espalhadas pelo país. Com esse apoio, os artistas conseguem criar e vender as obras. A gente quer deixar alguma coisa com essa exposição. Grandes projetos sempre deixam uma porta aberta para novos projetos. Como a arte aborígene é tão conhecida, pode ajudar a trazer um novo olhar para a arte produzida pelos povos indígenas do Brasil.

Inclusive, há uma obra do artista indígena brasileiro Xoha, da etnia Iny/Karajá, na exposição. Por que a decisão de trazê-la para O Tempo dos Sonhos?

Ele foi convidado, nós comissionamos a obra especialmente para a exposição, para chamar a atenção para a arte produzida pelos nossos ameríndios. É uma mandala, uma arte muito forte. Eu acho que é justo. Abre os olhos de muita gente e faz pensar. Os colecionadores brasileiros não olham para a arte produzida pelos povos indígenas, e quem sabe isso desperte a sensibilidade. Nossos indígenas têm um grafismo belíssimo. Faltam políticas públicas e projetos para contribuir para o florescimento dessa arte, como foi feito na Austrália.

Sal em Mina Mina, obra de Dorothy Napangardi

Que outros temas aparecem nas obras dos artistas aborígenes?

Eles pintam o sonhar. É bastante relacionado com o mítico deles. (O Tempo dos Sonhos refere-se à criação da Terra e de tudo que existe por seres poderosos que formaram a paisagem e estabeleceram a lei aborígene). As técnicas e histórias são passadas por geração e geração. Não existem regras na arte aborígene. E não existe passado, presente, futuro. O tempo é atemporal pra eles. Isso é fenomenal, porque nós ocidentais regulamentamos o tempo. É uma arte muito rica. Além da beleza, é revolucionária. Mudou os parâmetros e trouxe uma nova perspectiva para a arte contemporânea. É dinâmica, não tem como categorizá-la. Em uma mesma comunidade, eles produzem várias vivências com uma estética diferente. Pode parecer uma abstração, mas há toda uma história por trás. É fascinante.

O Tempo dos Sonhos: Arte Aborígene Contemporânea da Austrália

Quando: até 3 de junho, de terça a domingo, das 10h às 21h
Onde: Masc – Museu de Arte de Santa Catarina (Av. Governador Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Florianópolis)
Quanto: gratuito

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