Artesanato de tranças com palha de trigo reascende tradição no interior de Santa Catarina

Excedentes da matéria-prima são transformados em bolsas, chapéus e acessórios de decoração

Foto: Rafael Kummer

O cultivo de trigo na região Suldo país lidera com folga a produção brasileira do grão. Mas é nas pequenas produções, artesanais e orgânicas, que ressurge a tradição dos imigrantes italianos: o artesanato com a palha do trigo.

A matéria-prima precisa estar intacta e, para tanto, não pode ter sido colhida por máquinas. O agrotóxico também interfere nas condições da palha do trigo, que sobra depois da retirada dos grãos. É com essa palha dourada, selecionada por apenas cinco famílias da região de Joaçaba, no Meio-Oeste de Santa Catarina, que as artesãs da associação Tranças da Terra criam peças como bolsas, chapéus e acessórios de decoração.

— A trança é produzida manualmente e as diversas peças são montadas com o auxílio de moldes e/ou com máquina de costura. Algumas artesãs fazem a trança, outras fazem a montagem das diferentes peças e outras ainda fazem as peças que precisam da costura das tranças — relata a artesã e responsável pela área financeira da associação, Tereza Borela Bittencourt Kummer.

O processo é totalmente manual e pode levar dias para ser concluído. Além do tempo para trançar as palhas, a montagem de uma bolsa, por exemplo, leva cerca de seis horas para ficar pronta. Sem contar, ainda, o tempo de produção do trigo, que é plantado apenas no inverno e colhido, manualmente, no início do verão.

Tradição italiana

Foi um trabalho de conclusão de curso da Unoesc Joaçaba que resgatou a cultura da colonização dos alemães e italianos da região. Com o apoio do Sebrae, o projeto saiu do papel e se transformou em fonte de renda para artesãs de municípios do Meio-Oeste catarinense, como Catanduvas, Lacerdopolis e Luzerna. Hoje, além dos Núcleos de produção nas cidades da região, a associação tem sede e loja física em Joaçaba.

— Já no primeiro ano, em apenas cinco meses, cadastramos os artesãos interessados que tinham alguma habilidade manual, e esses foram capacitados com a técnica do trançar a palha do trigo, com as mestras de oficio . As artesãs com certa idade avançada que detinham a técnica — relembra Sueli Bernardi, coordenadora regional do Sebrae.

— Naquela época, quando ainda era um projeto, uma equipe de design participou, criando diversos modelos distribuídos em coleções com características específicas. Hoje, além daqueles, as próprias artesãs criam novos modelos. Atualmente são produzidas mais de 80 peças diferentes — completa Tereza.

A Cesta Flor é a peça mais vendida pelas artesãs, mas as tendências da moda também refletem na produção das artesãs.

— Quando é moda, o Chapéu Curvas e as Sportas (expressão de origem italiana que significa sacola) também são vendidos muito bem — segundo a artesã.

No último verão, por exemplo, as bolsas de palha protagonizaram a moda internacional e a peça da Tranças da Terra chegou a figurar um dos ensaios de moda da colunista da Versar, Lise Crippa. A peça compôs o look com elegância e recebeu um detalhe que destacou a bolsa de palha das artesãs.

Foto: Dari Luz, Divulgação

Além da loja física no centro de Joaçaba, os produtos estão disponíveis em revendedores de Piratuba e de Treze Tílias, e também podem ser encontrados em lojas virtuais.

Leia também:

Marca criada por catarinense na Alemanha transforma imagens do século 19 em peças decorativas

Artesã de Florianópolis é reconhecida internacionalmente com projeto de reciclagem de rede de pesca