Artista é tudo porra-louca

Roger Bhally, divulgação

Não estranhe o termo, é de uso corrente, como “esporro”, “porrada”, essas coisas que qualquer criança fala. Aliás, principalmente elas. Outro dia escutei de uma criança grande (uns 37 anos) a frase que deu origem ao título desta crônica, e convido a ele, e aos que concordam com ele, a refletir: cantores, dançarinos, coreógrafos, cineastas, músicos, atores, escritores, pintores, escultores, artesãos, estilistas, fotógrafos, designers, serão mesmo todos doidos? Poderia acrescentar outras profissões em que a criatividade é a tônica, mas entendi que ele se referia ao artista notório, aquele que tem fã clube e dá entrevista na tevê. Como o porra-louca do Luis Fernando Verissimo ou a porra-louca da Adriana Calcanhoto.

O mundo anda tão careta que um pouco de porra-louquice virou virtude, mas acredito, mesmo, que “mais louco é quem me diz e não é feliz”, verso iluminado dos Mutantes, que talvez tenham tomado uns uísques antes de compô-lo, ou fumado alguma erva ilícita, mas também podem tê-lo escrito às quatro da tarde diante de um copo de leite.

Médicos atendem em postos e hospitais, e quando sobra um tempo, consomem arte. Economistas estudam finanças, e quando sobra um tempo, consomem arte. Artistas exercem a arte, estudam sobre arte e, quando sobra um tempo, consomem arte: eis sua overdose. Criam roteiros, aquarelas ou o que for, e no resto do tempo leem livros, visitam exposições, vão ao teatro, escrevem poemas, veem filmes, convivem com os colegas, pesquisam tendências, buscam inspiração 24 horas. Não é entretenimento, e sim voracidade, alimento para o espírito. Aí acontece: sendo arte a expressão das dores do mundo, o artista refina ainda mais sua sensibilidade, expande sua consciência, transcende os costumes. Compreende o que faz o outro sofrer, por isso é menos preconceituoso, mais tolerante, defende quem não tem a representatividade que ele tem. O artista cede seus olhos, seu corpo, suas palavras para que o mundo enxergue a dor universal, que não é só dele, é de todos.

Janis Joplin morreu aos 27 anos, mesma idade em que morreram Hendrix, Amy e Kurt, e também Sonia, Miguel, Tereza, Fátima, que não conhecíamos. Charles Bukowski era despudorado, assim como Flavio, Marcos, Beth, Inês, que nunca narraram seus porres. Artistas trocam muito de parceiros sexuais? Será? Tão mais que Valéria, Gastão, Ricardo, Zilda? O que o artista tem de excessivo é seu compromisso com a linguagem. Sua intimidade é sua argila, seu passo de dança, seu close. O público e o privado, para ele, é uma só matéria-prima. Enquanto uma balconista, um bancário, um garçom ou uma engenheira costumam expor suas angústias e êxtases só depois do horário comercial, o artista faz uso dessas emoções em seu horário de expediente, que é largo, infinito. Impossível retê-las, ou não existiria a arte. Não é porra-louquice. É liberdade

 

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