Além das fronteiras oestinas, artistas visuais, do teatro e da música elevam o nome de Chapecó

Chapecó

Por Juliano Zanotelli / especial
Fotos: Angélica Lüersen / especial e Pablo Zambeli, Amazon Club, divulgação

A cidade que já foi das Rosas, de Condá, Irê e Cachenerê tem muito mais que a paixão pelo futebol, pelos suínos e aves. O “lado B” de Chapecó, que pode ser chamado de cena alternativa, eletrônica ou das artes, também movimenta e leva o nome da cidade para além das fronteiras oestinas.

Chapecó, a capital do Oeste, com seus mais de 200 mil habitantes, tem histórias, movimentos e sensações únicas, sem falar no mais lindo e alaranjado pôr-do-sol. Pessoas como a atriz Michelle Silveira, o artista plástico Rodrigo Cardoso e o Dj ZAC estão alçando o nome da cidade a outros patamares.

Cores e risadas

A arte de fazer rir pode ser o lema da atriz Michelle Silveira da Silva, de 35 anos. Natural de Porto Alegre/RS, ela adotou Chapecó para morar em 2007. De lá pra cá, a atriz, que dá vida a palhaça Barrica, tem levado o nome da cidade para os palcos de teatros do Brasil.

– Vim para Chapecó em busca de trabalho e encontrei aqui muitas possibilidades. Uma delas foi dar aulas de teatro e de palhaço na Fundação Cultural de Chapecó. Esse contato com crianças, adolescentes, adultos e idosos foi para mim um grande aprendizado, não só como artista, mas como ser humano – conta Michelle, que também é uma das organizadoras do Festival de Teatro da cidade, que já está na 10ª edição.

Criada em 2001, a palhaça Barrica tem participado de diversos festivais de palhaçaria, principalmente feminina. E esse é um tema que encanta muito a atriz, tanto que ela é a responsável pela Revista Palhaçaria Feminina. A publicação é escrita por mulheres palhaças do Brasil e do mundo e editada em Chapecó. Está na 4ª edição.

– A ideia é registrar e divulgar o trabalho realizado por essas artistas, que na maioria das vezes não têm espaço em outras publicações e não têm registros de suas histórias em bibliotecas variadas – explica Michelle.

A Barrica quer tocar as pessoas e dar amor através dessa figura meio maluca, meio infantil, muito animada, disposta, simpática, desajustada dos padrões. A intenção é levar a alegria por onde passa, seja em teatros, na rua ou em hospitais.

Desde 2012, Michelle e o companheiro, o também ator Vinicius Bouckhardt, realizam o projeto Doutores RiSonhos, que conta com visitas lúdicas de palhaços nos hospitais da cidade.
– Realizamos quatro visitas semanais nos setores de quimioterapia e oncologia do Hospital Regional do Oeste e também no Hospital da Criança Augusta Muller Bohner – conta Michelle.
O projeto é financiado pela Lei Rounaet do MinC e conta com o apoio de empresas da cidade. Por ano, cerca de 30 mil pessoas são atendidas.

– Me sinto muito honrada em poder contribuir e colocar Chapecó no mapa de produção cultural desse país. Gosto muito dessa cidade, me sinto em casa. Já viajei por tantos lugares e sempre tenho vontade de voltar para cá. Não penso em sair daqui – completa.

Na batida eletrônica

A cena da música eletrônica é um dos lados, digamos, pouco conhecidos, ou bem conhecido, para quem é da área. A cidade tem uma das melhores casas de música eletrônica do país, a Amazon Club que recebe DJs do mundo todo.

Aberto em 2009, o Club de madeira com o teto construído por índios da região está localizado em meio a natureza, ao lado de um lago. A ideia dos sócios Maurício Bertolini, Thiago Zacchi (DJ ZAC), Sidervan Mascarello, Elio Fernandes Junior e Ivandro Sales era de colocar a cidade no circuito mundial da música eletrônica. E a ideia deu certo, tanto que já passaram pela casa DJs importantes como Sasha, Booka Shade, Hernan Cattaneo, Nick Warren, Lee Foss, Kolombo, Danny Daze, Loco Dice, Nastia, D-Nox, entre muitos outros.

– O Oeste de SC está bombando e Chapecó se tornou uma das melhores cidades para se curtir uma boa noite de música eletrônica – comenta ZAC, um dos residentes da casa junto com os DJs Pape, Pimpo Gama, Ariel Merisio, Fran Bortolossi, Fuscarini e Gabriel Carminatti.

Atualmente, a casa é considerada a número sete pela Revista Housemag e abre uma vez
por mês ou a cada 15 dias, dependendo da programação. Tem espaço para 1,3 mil pessoas em duas pistas e oito camarotes.

Hoje o significado em tupi-guarani da palavra Chapecó teria que ser “alterado”. O “lugar de onde se avista o caminho da roça”, está mais para o lugar onde se avistam mais seguidores e admiradores da música eletrônica. Mas vale lembrar também que outros ritmos e sons têm seus fiéis seguidores na cidade.

Colorindo a cidade

Paulo de Siqueira foi, e sem dúvidas será para sempre, um dos grandes nomes quando o assunto é artes plásticas em Chapecó. Sabe ‘O Desbravador’, aquela estátua que mostra um gaúcho segurando um machado em uma mão, e na outra um ramo de erva-mate, o ‘Índio Condá’ e ‘O Viajante’? São alguns dos trabalhos do artista. Cidades como São Miguel do Oeste e Florianópolis também apresentam obras dele. E hoje, quem está movimentando a cena cultural da cidade, sem desmerecer o trabalho dos demais artistas visuais da cidade, é o artista plástico Rodrigo Cardoso dos Santos, o Digo Cardoso.

Natural de Jacareí, interior de São Paulo, o pai da Ana Alice, 12 anos, e do Matheus, de 10, mudou para Chapecó em 1998. Com um traço único, Digo, 31 anos, tem diversos murais espalhados pela cidade e pelo mundo. Mas a história dele com as artes começou por acaso.

– Sempre desenhei desde criança e lembro que quando eu trabalhava como estoquista tinha um bloquinho e fazia desenhos nele, mas nem imaginava que isso poderia se
tornar um trabalho – lembra.

E foi em 2009 que tudo mudou. Uma pessoa viu o trabalho dele e disse que os desenhos precisavam ser expostos. Tentaram espaços em galerias de Florianópolis e alguns amigos também começaram a fazer encomendas de desenhos.

– Essa ajuda dos amigos e da família foi e continua sendo um incentivo muito importante para a minha carreira, além de ajudar no aprimoramento da minha técnica – destaca Digo.

Técnica que pode ser vista em trabalhos espalhados pelas ruas de Chapecó, em cidades catarinenses como Floripa e Blumenau, e em cidades gaúchas, paranaenses e também paulistas. Digo também tem arte na Alemanha, Inglaterra, França e Holanda. Recentemente pintou, à convite do Atlético Nacional, um mural em homenagem às vítimas na tragédia aérea com o voo da Chapecoense nas paredes do estádio Atanasio Girardot, em Medellin, na Colômbia.

– Foi um trabalho que teve bastante sentimento envolvido, foi uma alegria e uma honra ter participado porque tem grande significado na minha carreira – destaca ele, que também pintou quadros com os rostos dos atletas, dirigentes, empresários e membros da imprensa que morreram no acidente. As miniaturas foram entregues para os familiares e um grande mural foi pintado no estacionamento do Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nês, local onde a torcida
da Chape se encontra nos dias de jogos.

É também, em uma das paredes do Centro de Eventos, que está um dos maiores murais já pintados pelo artista. O trabalho em homenagem às Olimpíadas foi pintado em 2016 e saiu após aprovação no edital do Governo Federal, chamado Arte em Movimento.
– Uso como referências do cotidiano, relacionadas a mim mesmo e nos meus filhos também – comenta o artista que gosta muito também de pintar desenhos com fitas, roupas coloridas, flâmulas e inspiradas no folclore.

– Se eu fico sem desenhar, fico meio louco, sabes – completa.

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