As bolhas: é preciso aprender a levar as outras realidades em conta

Já fui a favor do porte de arma. Já fui contra as cotas nas universidades. Eu estava errada. Eu mudei de ideia. E isso só foi possível porque saí da minha bolha para escutar, enxergar, compreender

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Foto: Pexels

Era criança e ficava extasiada ao ver um termômetro quebrar. De dentro saíam várias bolhinhas de mercúrio. Eu mesma vivia numa bolha, mas não sabia. Achava que o planeta se resumia à minha família, ao colégio e ao clube, onde eu encontrava “todo mundo”. Todos iguais, brancos, de classe média alta, que reproduziam piadinhas racistas e chamavam de bicha os garotos que não jogavam bola. Não éramos pessoas ruins, apenas alienadas.

Mas tive sorte. Meus pais me proporcionaram muita leitura, música, teatro. Dessa forma, o “todo mundo” se expandia. Caetano, Millôr, Fernanda Montenegro e Marina Colasanti, só pra citar alguns, viviam no meu quarto. Cultura não era apenas entretenimento, mas uma ponte para um universo muito mais amplo.

A arte impulsionou meu crescimento, mas eu continuava habitando um microcosmo. Até que comecei a trabalhar, a namorar. E aconteceu: conheci pessoas de fora da minha bolha. Gente que foi criada de outro modo, que tinha outra história de vida, que passava por dificuldades que nunca passei. É normal fazer turismo por territórios “estrangeiros”, mas é raro incorporá-los ao nosso. Seguem eles lá, nós aqui. Cada um na sua bolha.

Já fui a favor do porte de arma. Já fui contra as cotas nas universidades. Eu estava errada. Eu mudei de ideia. E isso só foi possível porque saí da minha bolha para escutar, enxergar, compreender. Não haveria crescimento progressivo se eu me contentasse em dizer oi para quem era diferente de mim e logo voltasse correndo para baixo da minha cama. Então cheguei mais perto de tudo que não era eu, e passei a levar outras realidades em conta.

Uma das maneiras de se fazer isso é através da política. Já votei certo. Já votei errado. Mesmo sabendo que a nossa política, como um todo, é canalha, cafona e arrogante, ela ainda é uma forma para avançarmos. Se a gente não avança, a gente morre dentro da bolha. Vive aquela vidinha: família, colégio, clube. Tudo bem seguro, como se não houvesse ninguém lá fora, ninguém que importasse.

Nunca fui militante ou ativista. Nunca tive partido, nunca fui fiel a um candidato. Mas já não me acomodo. Trouxe da minha bolha os princípios éticos e deixei pra trás os preconceitos e tudo o que me abreviava como ser humano, tudo o que parecia que me protegia, mas que apenas me tornava uma criatura indiferente. E o processo não terminou, ainda tenho muito a evoluir.

Diante do atual aquecimento de ânimos, lembrei do termômetro quebrado, das gotas de mercúrio no chão e de como elas se fundiam numa só, atraídas umas paras as outras numa reação química que me parecia fascinante. Em meio a essa perigosa onda retrô em que nos metemos, nunca me pareceu tão urgente que o “todo mundo” de um dialogue com o “todo mundo” do outro. E apostar em quem respeita o poder transformador da educação, da arte e da diversidade, contribuindo assim para unir todas as bolhas.

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