Será que há alguma pessoa com quem cruzamos que não recebeu uma chance?

vanessa tobias
Leo Munhoz/Agência RBS

Do início de 2018 até aqui meu ritmo de trabalho cresceu bastante. Meu luto encontrou o lugar dele, minha força voltou realmente ainda maior do que era e fazia tempo que eu não produzia tanto. Fazer 50 anos em 5 não era exatamente a meta mas, certamente, fazer 5 anos em 1 foi o que aconteceu.

Durante meu período de menor força – e até de esperança – produzimos bons resultados, cumpri com meus compromissos de trabalho e tive anos de profundo aprendizado sobre minha experiência humana – sobre as tristezas e as alegrias da vida.

Muito embora tanto trabalho sempre fosse uma paixão e “dar conta” fosse uma expressão comum para minha vida, comecei a perceber uma desproporção de esforço – ora trabalhando mais do que o necessário – levantando um quilo com a força de uma tonelada, ora fazendo o trabalho do outro, tirando dele a noção de crescimento, dedicação e aprendizado, dando muito mais do que recebendo – em uma matemática bastante fraca de reciprocidade.

Será mesmo que há alguma pessoa com quem cruzamos os nossos caminhos que não recebeu alguma chance na vida?

Acredito que uma das maiores frustrações que a gente pode carregar é tentar ajudar quem mais amamos, sem sucesso. Lidar com um amigo ou alguém da nossa família, para quem desejamos muito ser inspiração e gatilho de transformação, e não “dar conta” se transforma em um peso que a gente carrega sem perceber – é como se fôssemos culpados pelas escolhas que a pessoa está fazendo ou como se tivéssemos pouco valor ou nenhum, suficiente para dar a pessoa noção de que a vida vale a pena.

Tenho percebido com a minha gravidez que espero do meu filho e dos demais que vierem, que espero dos meus amigos e até dos que não conheço ainda, mas que fazem parte de mim, que façam um bom e simples uso da experiência humana.

Ao escrever uma carta para o João Ricardo, desafiada a registrar uma lição que gostaria de deixar para ele, sonhei que ele um dia possa conquistar a sua autonomia. Desejo que ele possa cuidar da sua saúde – sem drogar-se ou arriscá-la em competições radicais, que ele possa devotar-se a sua família – como absoluta prioridade, e que trabalhe para manter-se, desprovido de vaidade.

Conversando com o Ricardo abri meu desabafo e meu desejo – muito feliz e extremamente grata com tantas surpresas boas da vida – de que eu possa usar meus talentos e minhas experiências na direção do que o mundo precisa, mas temendo deixar Deus na mão se minhas metas de vida mudarem.

Eu disse: Deus conta comigo para ajudar quem precisa – mas falei isso como se dissesse que se o outro não der conta, eu tenho que dar. E ele disse: Vá, Deus conta com todo mundo – como se dissesse: o outro também tem que fazer a parte dele.

Não tenho certeza se conseguirei expressar a força dessa frase para o texto como ela despertou em mim uma sensação muito nova de descanso e de conexão com a vida. Precisamos olhar o outro sem fazer dele vítima, mas atleta em treinamento.

Nelson Mandela provavelmente não seria o mesmo não fossem seus 27 anos de recolhimento entre celas da prisão. Poderia ter sentido-se vítima, poderia ter dito que lhe cortaram as oportunidades, mas seus valores fizeram dele o líder que admiramos. Não estou sozinha no barco, e preciso despertar para a força de dividir os remos.

Qualquer que seja o desafio de nossas vidas, ele está conosco para que a gente possa crescer e melhorar nosso caráter. Deus me oportuniza tantas coisas pelas quais sou grata, e oportuniza a todos, absolutamente diariamente, o despertar dessa união que existe de dentro de cada um de nós com a força Dele.

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