As pequenas (e quase invisíveis) sabotagens do dia a dia

Porque, às vezes, parece que a felicidade alheia incomoda

Foto: Jake Melara on Unsplash

Uma vez eu li uma frase que dizia o seguinte: “Todo mundo quer te ver bem, mas nunca melhor que eles mesmos.” Soa terrível, né? Negativa. Pessimista. Amarga que só. Provavelmente quem escreveu esse negócio não tinha amigos de verdade.

Mas acontece que, depois, várias vezes (várias mesmo), eu vi ou vivi coisas que me fizeram lembrar dessa frase. E, em algumas dessas vezes, eu estava “do outro lado” – sendo aquela pessoa horrível que não quer ver os outros melhor que eu mesma.

Sabe quando você abre o Facebook e vê aquele seu ex-colega da escola ou da faculdade (que nem era assim tão particularmente brilhante, vai) comandando uma empresa, tirando férias em um país exótico, morando fora, dando palestra em uma faculdade super renomada, dirigindo um carrão – e pensa “caramba, mas por que não eu?”? Você não é preguiçoso. Você também trabalha. Se esforça. Teve praticamente as mesmas oportunidades que o fulano lá. Então por quê, meu Deus?

Ou quando aquele seu amigo começa a malhar e fazer dieta e ganha um corpo totalmente diferente – e você até zoa do novo modo de vida “fitness” dele, mas no fundo, bem no fundinho, tem um pouco de inveja da disposição dele em mudar algo que o incomodava? Ou quando sua amiga larga o emprego e vai mochilar pelo mundo, com a cara e a coragem – e você fala que ela é louca e inconsequente, mas fica se roendo por não ter a ousadia de fazer a mesma coisa?

Pode me julgar. Pode dizer que eu sou egoísta e invejosa e infeliz. Mas a verdade é que ninguém escapa desses momentos: nós costumamos ter muita facilidade para ver essas características nos outros, e nunca, nunquinha, em nós mesmos.

Só que ter inveja é normal. Pensar em si mesmo é normal: claro, precisamos de um equilíbrio, mas imagina o caos se todo mundo só pensasse na felicidade alheia? O que não pode acontecer é nos deixarmos dominar por esses sentimentos – e ficar remoendo aquela inveja, aquela sensação de ser menos, de estar sendo deixado para trás. Inveja é uma droga, mas pode ser usada como trampolim: eu também quero, e, se ele/ela conseguiu, eu também posso. Pode deixar de ser inveja, e se transmutar em inspiração – olha que coisa bonita. Afinal, existe espaço para todo mundo. O sucesso alheio não impossibilita o seu – a não ser que vocês estejam disputando o cargo de Presidente da República ou coisa parecida, mas aí já é outra história.

E até a inveja dos outros pode virar incentivo. Aquele cara fitness provavelmente usa cada “ah, fulano não vai comer isso, fulano só come salada, agora” como um incentivo para, justamente, lembrar que hoje, só mais hoje, ele vai resistir àquela carne gorda e suculenta ou àquela fritura que dá água na boca. E aquela menina que botou a mochila nas costas e se jogou no mundo deve estar louca para provar que todo mundo que falou que ela ia se arrepender está errado.

Claro que nem tudo é negativo nessa vida: às vezes, quando sua amiga disser para você não cortar o cabelo daquele jeito, porque pode ficar meio estranho, é porque ela realmente está achando que vai ficar meio estranho, e dando um conselho para o seu seu próprio bem. Ninguém merece viver a vida toda com uma barreira de auto-proteção sempre erguida, desconfiando de qualquer coisa que os outros digam.

Mas é legal aprender a separar o joio do trigo, o que vale a pena e o que não vale – e, claro, se policiar: da próxima vez em que você pensar em se posicionar contra os planos do seu amigo, conhecido, parente, colega ou quem for, pense por que você está fazendo isso. Você pode acabar se surpreendendo com a própria resposta.

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