Autora catarinense retrata situação dos refugiados

Bruna Kadletz conta sua trajetória de quase dez anos envolvida com as causas humanitárias no mundo

Bruna com crianças refugiadas em Joanesburgo, na Africa do Sul. Foto: Arquivo pessoal

A ativista humanitária catarinense, Bruna Kadletz, 37 anos, acaba de lançar seu primeiro livro Minha Terra Mora em Mim, que traz relatos de seus trabalhos com populações em deslocamento nos últimos anos no coração de campos de refugiados no Oriente Médio a zonas de fronteira no leste europeu, passando pela África do Sul, Turquia, Jordânia, Líbano, Palestina, Grécia, Sérvia, Hungria, França, Reino Unido e outros países.

Nascida em Florianópolis e formada em Odontologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Bruna reconheceu um impulso para trabalhar com as causas humanitárias.

Depois de rodar o mundo para atuar em zonas de pós-conflito, com populações refugiadas e com necessidades humanitárias, Bruna voltou para Florianópolis onde nasceu o Círculos de Hospitalidade, organização que desenvolve iniciativas culturais, educacionais e sociais voltadas para a população migrante na cidade, com a intenção de facilitar o processo de integração dessa população a sociedade de acolhida.

 

Qual a sua principal motivação para abraçar a causa dos refugiados?

Minha motivação brota de um chamado para o serviço abnegado, do entendimento que compartilhamos uma casa em comum, que somos seres interconectados e que vivenciamos a pior crise humanitária desde a II Guerra Mundial. Como manter-me indiferente diante de todas as crises e sofrimento alheio? Eu enxergo que a real natureza humana é amor, solidariedade e serviço. Contudo, estamos desconectados da nossa essência, vivendo num estado de deslocamento interno. A ilusão que o consumismo e acúmulo de bens materiais traz felicidade deve ser dissolvida. A real fronteira que devemos transcender é aquela que nos separa de nós mesmos, que nos desconecta da vida e uns dos outros.

 

Você consegue destacar alguma história mais emocionante que aconteceu durante suas viagens?

Uma das histórias que mais me toca é a da Fátima, menina síria que se refugiou com sua família no Campo de Refugiados Bourj el-Barajneh, no Líbano. Nos encontramos três vezes, por três anos consecutivos. Em nosso último encontro, em abril de 2019, a Fátima, de apenas 14 anos, iria noivar. Por uma obra do destino, chegamos justamente no dia do seu noivado. Ela já havia deixado a escola para trabalhar na farmácia do campo e assim ajudar nas despesas da casa. Casar tão jovem com um homem mais velho não era o seu desejo, mas, dentro da sua realidade, era a única forma de segurança imaginada por sua mãe, que só desejava a proteger. Foi doído e choramos juntas. A história da Fátima, contada em mais detalhe no livro, revela um duro aspecto de guerras e como as suas consequências pesam desproporcionalmente sobre meninas. Uma vez deslocadas de seus países, além de carregarem consigo o trauma e o custo humano das disputas por poder, meninas e mulheres ficam mais sujeitas a violência e políticas injustas, situação esta que dificulta o acesso a proteção e a oportunidades.

 

Como surgiu a ideia do livro e o que ele aborda?

Eu sempre gostei de escrever e publicar um livro era um sonho antigo. Uma amiga querida e colaboradora do Círculos de Hospitalidade, a jornalista Brígida Poli, leu um dos meus textos e intermediou a conversa com a Editora Insular. A obra retrata histórias humanizadas de pessoas em situação de refúgio e traz reflexões sobre os encontros com essas pessoas. Eu busquei também entrelaçar minha percepção sobre crises humanitárias e iluminar a necessidade de sustentar um coração aberto quando em contato com o sofrimento alheio.

Leia mais: Ativista humanitária catarinense, Bruna Kadletz, lança o livro “Minha terra mora em mim”

Em Florianópolis, você mantém a entidade Círculos de Hospitalidade. Conta um pouco sobre ela e suas principais ações.

Eu gosto de imaginar o Círculos de Hospitalidade como um movimento pela humanização de pessoas refugiadas e imigrantes. Como uma entidade sem fins lucrativos, atuamos em três eixos principais: projetos de integração, que compreendem aulas de português, aulas de pintura para mulheres, inserção laboral, a Feira Multicultural Unindo Mundos, Aproximando Culturas, e o projeto Somos Protagonistas, que promove o empreendimento e o protagonismo feminino; projetos de conscientização, que incluem palestras, workshops e seminários; e ações internacionais. Neste momento, apoiamos projetos humanitários e educacionais no Líbano e em Angola. Na agenda dos eventos estão o Seminário Deslocamentos e Crises Humanitárias, que acontece no dia 10 de outubro no Ministério Público Federal em Santa Catarina, e o Bazar com Estilo, que acontece nos dias 1, 2 e 3 de novembro no Centro Integrado de Cultura (CIC). Para mais informações, é só seguir nossas redes sociais (@circulosdehospitalidade) ou enviar um e-mail para contato@circulosdehospitalidade.org.

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