Bacurau é um testemunho primoroso sobre um mundo de ira

Filme esteve em pré-estreia no Cineshow, no Beirama Shopping

"Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Foto: Reprodução

*Andrey Lehnemann, especial

– Quem nasce em Bacurau é o que?

– É gente.

Dona Carmelita morreu. Ela tinha 94 anos e carregava o peso da história da reconstrução de uma cidade pernambucana esquecida. Dois moradores de Bacurau dirigem até o município, enquanto caixões caem pela estrada. Naquela região, afinal, a morte é um momento de canto e de comunhão. É assim que inicia o novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles: com um povo homenageando sua história e mortos, algo não contumaz no país que habitam.

“Vim aqui só pra dizer: ninguém há de me calar e, se alguém tem que morrer, que seja para melhorar. Tanta vida pra viver, tanta vida a se acabar, com tanto para se fazer e com tanto pra se salvar” canta Geraldo Vandré num dos versos constantes de Bacurau. Antes disso, nos créditos iniciais, Gal Gosta canta sobre discos voadores e canções de amor, em sua composição “Não Identificado”, ao passo que observamos o nosso universo, satélites e nosso planeta – numa rima visual com 2001 – Uma Odisseia no Espaço, mas com Kleber e Juliano trocando a ópera pela música nordestina brasileira.

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Na cidade de Bacurau, no entanto, os únicos discos voadores que passeiam pela região são drones. Não há espaço para fantasia naquela realidade, onde torneiras se tornaram adereços para casa, a água chega de caminhão-pipa aos moradores, os mantimentos são racionados e a comunicação é feita por rádios operadores e mensagens instantâneas. O ceticismo da população se tornou sintomático, com o tempo, naturalmente. Quando o prefeito chega na cidade com seu novo jingle e falando em “trabalhar juntos”, o povo se fecha em casa e lhe deixa falando sozinho numa cidade vazia e silenciosa.

Porém a melhor crítica social de Bacurau se percebe nas entrelinhas – o ônibus escolar agora é ferro-velho, os livros são tratados como lixo e entregues aos pedaços por caminhões de entulho, remédios se tornaram venenos para alienar e o único televisor ligado de Bacurau descreve que o país agora está fazendo execuções públicas às 14h. Kleber e Juliano jamais são explícitos no acordo que há entre milícias e o Governo americano, igualmente. Ambos carregam o pessimismo brasileiro de seu próprio contexto para gerar uma narrativa espelhada tanto em John Carpenter quanto Glauber Rocha.

Bacurau é quase um faroeste nordestino que reside na tênue linha entre passado, presente e futuro. Tudo é complementar. Tudo é orgânico. Tudo é fundamentado em porquês. O único onirismo, comum nas histórias de Kleber Mendonça Filho, mostra-nos cavalos tomando às ruas com muito barulho. Resta que a população se lembre da história, una-se com quem compartilha o mundo real consigo e resista. Apesar de uma resolução Tarantinesca, a mensagem de Bacurau é a de esperança e de comunhão. É um testemunho poderosíssimo sobre a recente ira que incendeia o mundo e no que isso pode nos transformar.

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