A sensibilidade da arquitetura em quatro bares do centro de Florianópolis

Pedro Caetano, divulgação

Hoje eu te convido a percorrer o centro de Florianópolis lançando sobre os inúmeros bares em operação na região um olhar contemplativo. Repare nas propostas de ocupação destes espaços, na sua estética, nas experiências de fruição que proporcionam aos seus frequentadores.

Os bares que apresento abaixo mostram que, para além da aparência e das funcionalidades dos espaços, os bons profissionais de arquitetura são sensíveis aos seus contextos urbanos e nos instigam a olhar para dentro e para fora.

MÚSICA PARA VER

Jazzinn: em 160m2, proposta de ocupação fluida para diferentes usos num lugar dedicado à música. Foto Pedro Caetano, divulgação

Um bar de drinques dedicado à música em atmosfera cosmopolita e uma vista generosa para o mar da baía norte da capital. O Jazzinn Late Night Bar está dentro de um shopping center, mas nem parece, dado o espaço relação com a cidade lá fora, estabelecido através do grande pano de vidro.

Seus interiores contam com um grande balcão de bar, um lounge com sofás e uma área de bistrô com mesas e cadeiras. O projeto do escritório Blasi Bahia organiza progressivamente um programa de usos que vai do mais casual e público (bar) ao mais privativo e intimista (bistrô).

A ambientação é sóbria sem ser ostensiva. O par de clássicos sofás Chesterfield em veludo verde e a iluminação com 90 luminárias circulares, em clara referência ao projeto modernista de Marcel Breuer para o prédio que abriga atualmente parte do acervo do Metropolitan Museum, em Nova York, capturam olhares estetas.

CINEMA TRANSCENDENTAL

Madalena: diversidade de referências e de público em ambientação contemporânea-retrô. Foto Fábio Puttini, divulgação

Entrar no Madalena Bar é como mergulhar numa piscina azul, onde a atriz Natassja Kinsky te convida a sentar e beber uns drinques em clima oitentista.

O trabalho do Emanuella Wojcikiewicz Studio mescla referências diversas como o seriado Twin Peaks, o episódio “San Junipero” da série Black Mirror, o filme A Liberdade é Azul e os artistas que frequentaram o famoso Chelsea Hotel na Nova York dos anos 1960-70.

Materiais frios como azulejo, vidro e metal predominam no térreo e no piso superior, mas o resultado são composições intimistas, lavadas pelas luzes de neon rosa dos respectivos balcões de bar.

Em cima, o espaço do bar é revestido com papel de parede estampado com fitas VHS. À sua frente, uma pequena pista de dança com varanda que se debruça sobre a rua Victor Meirelles. A fachada metálica vazada guarda um segredo a ser desvendado: ela possui palavras de amor em toda a sua extensão, homenageando os grandes personagens femininos dos séculos 20 e 21.

 

SE ESTA RUA FOSSE NOSSA?

Janelinha: o bar é uma janela e o seu salão é a rua, propondo uma conexão direta entre pessoas e espaços urbanos. Foto Divulgação

As arquitetas Carolina Scussel e Isabella R. da Silva, da Fluxa Arquitetura, projetaram um bar sem salão. A proposta do Janelinha é vender chopes, cervejas e drinques para quem quer ocupar as ruas do centro leste de Florianópolis.

A fachada, interativa, é negra e tem uma janela com grades de desenho limpo, numa menção ao local de origem do negócio, inicialmente aberto na janela gradeada de um antigo casarão, como um apoio ao bar No Class, ali em frente.

Concreto aparente, metal e chapas OSB no interior de 14m² compõem o volume quase cúbico na esquina das ruas Victor Meirelles e General Bittencourt. A placa de neon com o ícone da janela e o coração, ora partido, ora completo, avisa que a rua acolhe todos os amores.

OCUPAÇÃO

Beer Boss: fricção sutil entre elementos históricos e contemporâneos no exíguo box do Mercado Público. Foto Pedro Caetano, divulgação

No vão central do prédio tombado do Mercado Público de Florianópolis, uma cervejaria  de ar rústico-industrial assinada pela Pimont Arquitetura tem como elemento principal um balcão de atendimento em madeira, repleto de torneiras de chope, copos, embalagens  e apetrechos de bar.

Para aproveitar o limitado espaço da planta baixa, explorou-se a verticalidade do corredor através de expositores e estantes altos, além de uma estrutura aérea em aço inox que abriga taças, garrafas especiais e iluminação. A força de elementos históricos como as grandes portas coloniais e as centenárias paredes do Mercado dialogam com estruturas aparentes e linhas rígidas de mobiliário para compor uma estética de viés marginal.

– A ideia de um “produto proibido”, como o whisky americano nos anos de lei seca e a fantasia dos heróis que salvaram sua produção nos alambiques clandestinos e no comércio paralelo, alimentaram o imaginário dos criadores do negócio e dos arquitetos no desenvolvimento do projeto – explica Fabíola Pimont.

 

AGENDA

  • O que: Curso de Pós-produção de Imagem para Arquitetura
  • Quando: 09, 10 e 11 de abril de 2019, das 19h30 às 22h
  • Onde: Casacanto – Rua luis Delfino, 146, Centro, Florianópolis
  • Quanto: R$ 330
  • Informações:  www.blocobposproducao.eventbrite.com.br
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