Saiba o que é bioconstrução e veja modelos de casas sustentáveis em SC

O proprietário dedica tempo, trabalho e afeto à obra, elaborada para impactar minimamente o meio ambiente. São reutilizados materiais da natureza ou de demolição

Solange Kellermann
Casa de Solange Kellermann (Fotos: Felipe Carneiro/Diário Catarinense)

POR ALINE TORRES/ESPECIAL

A sustentabilidade – o sonho de criação de um novo mundo, mais consciente, justo e amoroso – é um movimento de muitas faces. Em Florianópolis, ganha mais uma: as moradas ecológicas. O conceito é simples e também atende pelo nome de bioconstrução. Apesar de variadas técnicas, a essência é a mesma.

O proprietário dedica tempo, trabalho e afeto à obra, elaborada para impactar minimamente o meio ambiente. São reutilizados materiais da natureza ou de demolição.

As casas são suficientemente inteligentes para produzirem sua própria energia, tratarem seu esgoto, reciclarem seu lixo – e na maioria dos casos, nelas ainda se cultivam alimentos orgânicos.

bioconstrução

Entusiasta do equilíbrio entre ecologia, tecnologia e cultura, o mineiro Raphael Autran fundou em 2013 a Baobá Construções, empresa que auxilia desde a consultoria até a elaboração da obra. A Baobá tem oito projetos realizados na Ilha do “chão ao teto”, intervenções menores e promove cursos, oficinas e mutirões.

A empresa atua em parceria com engenheiros, bioarquitetos, técnicos ambientais e pedreiros. Oceanógrafo, Raphael aprendeu fazendo.

Sua primeira experiência foi em 2009. Ele construiu em Florianópolis a casa em que sua filha nasceu, se apaixonou e começou a empreender.

Para se capacitar, investiu na pós-graduação em Gestão Ambiental, Design em Permacultura e Edificações no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Acredita que o fato de ter mãe arquiteta e pai que construiu sozinho a casa em que morou na infância também colaborou na sua formação.

Com maior domínio, o empresário construiu uma nova residência no Rio Vermelho, seu cartão de visitas tridimensional. Se a primeira tinha 60 metros quadrados, a atual tem 192. A base é de pedras, com madeiras nobres como umbu, peroba e canela reaproveitadas de demolições, telhado verde e amplas janelas. Residência avaliada em R$ 400 mil pelo mercado, mas que custou a Raphael R$ 95 mil.

É que as casas ecológicas, além de tudo, são mais baratas.

– A bioconstrução vale para todos os bolsos. A poupança depende de múltiplos fatores, da matéria-prima disponível ao engajamento para trabalhar, mas posso dizer tranquilamente que o custo dos materiais em comparação às construções tradicionais pode ser reduzido de 30% a 90% – afirma Raphael.

raphael autran
Raphael Autran

Cidadania e envolvimento com a comunidade

Outro princípio das construções sustentáveis é furar a bolha da especulação imobiliária com cidadania.

– Nós estimulamos os processos participativos. Imagine um vizinho que ajude o outro a fazer sua casa? Participe das reformas, leve seus amigos e familiares para a apoiar? Isto é independência e empoderamento, esse grupo será um exemplo de que podemos planejar um mundo novo, ao invés de aceitarmos o que nos foi imposto – completa.

Raphael também tenta inverter a lógica do mercado:

– Pergunto quanto dinheiro o interessado tem, quanto tempo pode dispor e com quantas pessoas pode contar. Então, criamos o projeto. É um exercício para repensar os sistemas construtivos. Não consigo imaginar uma pessoa passar 50 anos da sua vida pagando uma casa, se há tantas outras possibilidades.

Casa própria

Stephan Arnulf Baumgartel
Stephan Arnulf Baumgartel

Stephan Arnulf Baumgartel, 53 anos, professor alemão de Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), desejava um cantinho único, seu. Com projeto e supervisão de seu vizinho Raphael, construiu na Rua David José Bastos, a mais alta do Rio Vermelho, uma casa de terra. Do telhado verde da casa de barro, vê-se o mar.

A obra foi feita sem pressa. Stephan se transformou no mestre da sua obra, arquiteto de pés descalços, a socar a terra com os pés, a moldar com as mãos, se fez joão-de-barro. E curtiu cada momento da edificação, na crença que não se contrata uma pessoa para viver em seu lugar.

– Baratear a obra não foi um objetivo principal. Eu gostei da ideia de me envolver. Fiz as paredes com meus amigos e meus filhos. Foi ao mesmo tempo uma autoconstrução – define.

As casas de terra crua são heranças dos povos antigos. São casas vivas, que respiram, portanto, não mofam e equilibram a temperatura interna do ambiente. De acordo com o EcocentroIpec, centro de referência em bioconstrução na América Latina, situado em Pirenópolis (GO), o conforto térmico é produzido pela grossa espessura das paredes e mantém a média de 22°C de dia e 28 °C à noite.

O único desafio é proteger a casa das intempéries – chuvas, ventos e sol em excesso. Para isso, é preciso boas botas e bom chapéu, que pode ser traduzido como isolamento no chão
e varanda abrigada.

– O concreto armado sobrevive em torno de cem anos, a bioconstrução é milenar – compara Raphael.

Espaço de cura

Os pais de Solange Kellermann, 57, compraram há 18 anos um pedaço do paraíso. Um sítio de sete hectares na Costa de Dentro, no sul da Ilha, com densa vegetação da Mata Atlântica e cachoeira de água límpida vinda direto do morro. Um lugar sagrado, na visão da terapeuta holística, que inclusive desenterrou um velho caldeirão durante a construção do espaço de cura Açucena.

A Baobá começou a obra no dia 21 de agosto do ano passado e terminou em janeiro. O telhado em pirâmide coberto de orquídeas e bromélias, as paredes de barro e a imponente figueira dando as boas-vindas são a manifestação da busca de Solange por um novo propósito de vida.

– Eu fiz um caminho de volta à minha essência e percebi que eu gostaria de trabalhar com o desenvolvimento do ser. Este é um espaço da minha família, que posso usufruir fazendo o que acredito.

Novidade milenar

Antigamente, as pessoas não terceirizavam as construções de suas casas. Aproveitavam-se da terra crua, abundante matéria-prima. Há registros de que a bioconstrução é utilizada há
mais de 5 mil anos. Muitas destas edificações continuam de pé, como a Muralha da China.

A ONU estima que metade da população mundial viva em casas de terra. Por ser uma técnica simples, é predominante em regiões de extrema pobreza da Ásia e África, mas está presente também em bairros inteiros franceses e residências vanguardistas na Alemanha e na Áustria, além de polos de inovação e conhecimento, como a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Também aparece em cidades históricas brasileiras, como em casarios de Ouro Preto, Mariana, Goiás Velho e nas capitais nordestinas. Em Florianópolis também não faltam exemplos, como a Casa da Bruxa, no Sesc de Cacupé, o Instituto ÇaraKura e a Chácara Clara Noite do Sol, ambos em Ratones.

Esse saber vivenciado já no Brasil colonial foi desaparecendo a partir dos anos 30, época de grande industrialização no país. As estradas de ferro, que permitiram transportar diferentes materiais construtivos, e a avidez da especulação imobiliária, fizeram a bioconstrução perder seu lugar – mas é justamente o caos trazido pelo progresso que reacende a busca pelas casas ecológicas.

Para o promotor de Justiça Paulo Locatelli, coordenador-geral do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente, o principal problema ecológico da capital catarinense é o crescimento desordenado, que gera irreversíveis impactos.

Fritz Müller, braço forte na sustentação da tese darwiniana, fez história observando os crustáceos da Praia de Fora, na antiga Desterro. Se estivesse vivo, no mesmo local, a movimentada Avenida Beira-Mar Norte, o naturalista alemão poderia estudar o esgoto.

A poluição foi gerada pelo crescimento desordenado sem a adequada estrutura de saneamento básico. A falta de planejamento urbano é um reflexo do descuido das políticas sociais e ambientais, panorama que é replicado em boa parte das cidades catarinenses. Sem contar os 103 mil imóveis em Florianópolis considerados ilegais, no estudo feito pela Secretaria Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (SMDU), em 2013.

No mesmo cenário há o crônico problema habitacional brasileiro, exposto recentemente pelo desabamento do prédio no largo do Paissandu, no centro de São Paulo. De acordo com o IBGE, 6,35 milhões de famílias não tem onde morar. Na Grande Florianópolis, 108 mil pessoas aguardam na fila por moradia social.

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