Body shaming: o peso da mulher ainda é um peso

A expressão refere-se à prática de atacar uma pessoa por conta de sua forma física. Após engordar 20kg, Cleo Pires teve que enfrentar as críticas e superar os ataques nas redes sociais

Cleo Pires
Foto: TV Globo, Divulgação

Após ganhar cerca de 20 quilos, a atriz e cantora Cleo Pires recebeu uma onda de ataques vindos das redes sociais. Exposta aos holofotes desde muito cedo, precisou aprender a lidar com os comentários maldosos em relação a sua forma física. Em recente entrevista ao Fantástico, Cleo falou sobre body shaming, expressão em inglês que, traduzida, significa vergonha do corpo. O termo que define a prática de atacar alguém verbalmente pelas formas físicas ganhou força com as redes sociais e atinge não somente celebridades. Segundo a psicóloga e palestrante Graziela Bonatti, a situação atualmente denominada body shaming é algo bastante antigo e historicamente presente na vida das mulheres.
– Culturalmente foi-se construindo e estabelecendo critérios e padrões para o que seria o “shape” corporal desejável para o corpo feminino. Isso vem muito atrelado ao machismo e ao conceito de mulher objeto.

Essa cobrança pelo corpo perfeito é algo inserido na sociedade, a própria Cleo revelou que constantemente precisa converter o seu olhar para o que é imposto como diferente.

– Porque eu, assim como você, tive meus pensamentos intoxicados para automaticamente julgar a aparência do outro o tempo inteiro. E eu venho corrigindo isso no meu olhar há anos. São evidentes os motivos que me levam a falar sobre isso agora. Não que eu tenha me tornado uma pessoa monotemática – adoraria estar falando aqui sobre os meus novos projetos –, mas o que vem acontecendo em relação à postura da mídia e de uma parcela das pessoas que me seguem nas redes vem me afetando, sim. E, vez ou outra, nós, pessoas públicas, precisamos lembrar ao mundo que também somos de carne e osso (e células de gordura, que às vezes dobram de tamanho, rs).

Com essa mudança na aparência, Cleo precisou lidar com os ataques, mas a briga com a balança já causa transtornos há muitos anos, como revelou a atriz em uma de suas postagens no Instagram.

– Passando aqui para dizer que nesse tempo de carreira, enquanto você me assistia esperando que eu correspondesse a sua expectativa sobre a minha magreza, eu estive pressionada a me manter no padrão estético sufocante que esperavam de mim. São muitas marcas e muitos abismos.

 

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A profissional Graziela destaca o quanto esses comportamentos e essa cobrança pelo corpo perfeito podem ser responsáveis por danos psicológicos às mulheres.

– Os transtornos são evidentes a partir do momento que consideramos que cada ser humano é único e tem um corpo com características, proporções, cores e formas também únicos. A tentativa de procurar enquadrar-se em métricas e formas exteriormente impostas, por si só, já é uma agressão à particularidade de cada ser – aponta a psicóloga, que acrescenta:

– O sentimento de inadequação, de impossibilidade para alcançar esse padrão pode criar uma luta inglória na busca por uma perfeição que jamais será alcançada. Essa constatação pode levar a pessoa a sentir-se não merecedora da vida em sociedade e da alegria em experienciar o seu jeito único de ser e estar nesse mundo. Podendo causar transtornos como a disforia corporal, as compulsões alimentares, a bulimia e a anorexia, crises de pânico e ansiedade, fobias sociais, depressão e até suicídio.

 

Processo de aceitação

A atriz Klara Castanho, 19 anos, também passou por um processo de adaptação e aceitação do seu corpo. Nesta semana, no programa Encontro com Fátima Bernardes, ela dividiu sua experiência.

– Só entendi que eu podia ser bonita quando aceitei o que eu via no espelho e não quis parecer ninguém. É muito difícil você não querer mudar nada. Tem dias que acordo e me acho lindíssima, mas tem dias que acordo e falo: “Putz grila, que horror”. É um trabalho constante.

Assim como Cleo, Klara cresceu em frente às telas e aos 8 anos teve seu primeiro papel na novela Revelação, do SBT. Seu amadurecimento aconteceu junto das personagens que realizava. Ela se enxergou mulher pelo olhar e julgamento de outras pessoas.

 

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– A partir de 2013 comecei a me entender mais mulher. Vi que meu corpo começou a mudar. Sou muito pequenininha, mas meu corpo começou a mudar muito. Então era uma coisa de querer parecer com alguém, de querer estar daquele jeito, do meu peito ser daquele tamanho, da minha cintura ser fina desse jeito, entrei numa pilha muito grande de querer me ajustar no que eu via nas modelos. E aí eu sentei com a minha mãe e falei: “Não consigo gostar do que eu vejo. Não dá. Não é isso que eu quero”. Por que o que eu via? As modelos de 1,80, com a barriga chapada, com corpos perfeitos, medidas perfeitas. E via que as meninas da minha idade também sentiam a mesma coisa – afirmou.

Em suas redes sociais, Klara costuma motivar suas seguidoras com mensagens de aceitação do seu biotipo.

– Existe uma pressão muito maior [para as mulheres]. Nos homens é difícil que exista uma pressão visual. Ser mulher na sociedade é muito difícil. Vi meninas de 12 anos vindo me falar que queriam parecer com o que eu estava mostrando, que queriam que o corpo delas fossem daquele jeito. Com 12 anos, você não tem nem proximidade do que seu corpo vai ser. A gente quer, tão cedo, parecer mais velha, quer tanto se encaixar no que é uma mulher bonita, que a gente entra num looping infinito de cobranças – refletiu.

 

O papel das redes sociais

O problema da aceitação é doloroso para muitas mulheres e passa por um trabalho de autoimagem e fortalecimento da autoestima.

– Todos deveriam ter, ou se dar, a oportunidade de passar por esse processo de autoaceitação. A forma como nos relacionamos com o mundo, com os outros, revela muito sobre a forma como nos relacionamos com nós mesmos. O processo de autodescoberta e autoaceitação é lindo e muito especial. Deixa registros e descobertas importantes para o resto da vida da pessoa e cria as condições para uma vida mais plena e saudável consigo e nas relações estabelecidas. Precisamos aprender a nos relacionar como seres humanos imperfeitos, falíveis e finitos, que somos. Aceitar nossa luz e nossa sombra – acrescenta a psicologa Graziela Bonatti.

A jornalista e modelo catarinense Mariana Passos conta que entrou em um quadro de depressão durante este período.

– Sempre trabalhei com TV e fotos, o que exigia de mim um corpo aceitável para o mercado. Quando me vi em situações diferentes as habituais, engordei. Não foi fácil! Junto com o peso veio uma depressão muito forte, justamente por não aceitar que estava com corpo “fora dos padrões”, mas aí comecei a pesquisar mais sobre o mercado Plus Size, e acabei me encaixando nele.

Com forte presença nas redes sociais, Mariana conta como lida com as críticas.

– As críticas sempre existirão, se você é magra, se você é alta, se está gorda. É difícil para quem lida com a imagem aceitar estar fora de padrões. Quando chegam críticas negativas eu simplesmente apago e bloqueio a pessoa. Não digo que não dói, tenho sentimentos, mas não fico remoendo. A dor é momentânea, depois de bloquear a pessoa eu logo me recupero – finaliza.

Graziela aponta que as redes sociais contribuem bastante para o fortalecimento dos padrões estéticos, mas também ressalta o quanto podem ter um papel importante na mudança de pensamento.

– As redes sociais podem ter a função de reproduzir e manter esses padrões ou, então, de desconstruí-los e criar algo novo e mais leve para todos, e pessoas influentes no meio digital podem ajudar a abrir esses novos caminhos.

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