Bondade demais ou aprendizado

Foto: Diogo Sallaberry/Agência RBS

Um pai me escreve contando a história do dia que foi ver o filho na aula de kung fu. Quando o professor decidiu dividir as crianças em dois times, o garoto, que é um dos melhores alunos da turma, pôde começar escolhendo seu time. Para desespero do pai, o menino foi escolhendo os piores lutadores do grupo. O mais lento, o mais desatento, o mais desengonçado. Do outro lado, o time ia sendo formado pelos melhores da classe. Como previsto, na hora da luta entre os dois times, a equipe do filho do pai que me escreveu foi massacrada. Perderam a maioria das lutas.

No carro, a caminho de casa, o pai cobrou o filho. Você deveria ter escolhido lutadores melhores. Você escolheu os piores da turma. Você não quer ganhar? O filho respondeu o seguinte: que sabia que tinha escolhido o pior time, que sabia que seu time iria perder, mas que mais importante do que ganhar era poder ajudar aqueles alunos, dando dicas na hora da luta e incentivando a persistência e esforço dos menos experientes. Ganhar não é
tudo, pai. É muito melhor quando todo mundo melhora junto.

O pai ficou com um nó na garganta.

Tenho essa teoria de que todo pai é um idealista. Acreditamos que iremos criar nossos filhos de forma diferente, amorosa, respeitosa, educada. Acreditamos que somos
capazes de formar uma geração que vai transformar o mundo para melhor. Acreditamos nisso, sonhamos com isso, e então nossos filhos vão crescendo e vamos os encaixando nos mesmos formatos que fomos encaixados. Tem que ganhar. Tem que decorar para tirar nota boa na prova. Tem que ser o melhor. Não queremos que sofram. Na dúvida, que
sofram os outros.

De idealistas, viramos conformistas. O mundo é assim mesmo. Não tem jeito. Ele tem que aprender que o mundo é cruel. Mas o mundo é cruel ou cruéis são as pessoas? Não percebemos que o mundo é o que a gente faz dele. O mundo é cruel porque fomos treinados pra sermos cruéis. E continuará sendo, se continuarmos criando nossos filhos pra isso.

 

Leia também:

A mesa de sobremesas

“Gente grande tem todos esses sentimentos escondidos”

Perdoe meus erros, minha filha