Box 32 completa 35 anos num dos principais pontos turísticos de Florianópolis

Comandado por Beto Barreiros, o box no Mercado Público é responsável por disseminar a cultura manezinha na gastronomia

Fotos: Tiago Ghizoni

A inspiração veio do avô, com a sofisticação de quem viajava o mundo e reconhecia a cultura de cada local no mercado central das capitais. Com a bagagem e admiração, Beto Barreiros decidiu, aos 28 anos, apostar no ponto turístico de Florianópolis numa época em que o Mercado Público perdia sua essência para os supermercados que abasteciam a cidade. Assim nasceu o Box 32, o mais antigo bar e restaurante de um dos principais pontos turísticos de Floripa ainda em funcionamento.

Em 35 anos, o sonhador carrega ineditismo e inovações. Foi o primeiro a colocar ostras no cardápio de um bar e é referência quando o assunto é frutos do mar. Acumula números que impressionam: mais de 13 milhões atendimentos, 1.890 peças do presunto pata negra vendidas e, se fossem contabilizar os copos de chope, seria possível dar ao menos cinco voltas ao redor do mundo, segundo Beto.

Além disso, de acordo com o proprietário, é o único bar do mundo que tem o menu em sete idiomas: português, inglês, espanhol, alemão, japonês, italiano e francês.

O imbatível pastel de camarão – campeão de vendas desde que o Box 32 abriu as portas

Colecionador de histórias

Bastam alguns instantes de conversa com Beto Barreiros para saber que o sucesso vai muito além do imbatível pastel da camarão. Ele vem da simpatia e humildade do dono do lugar.

— Certa vez uma senhora me perguntou se poderia fazer um prato com um camarão que ela encontrou na peixaria aqui do lado. Então fui, preparei o camarão e servi para ela e seu marido. Eles comeram, servi outros pratos típicos do restaurante e, ao pagar a conta, o senhor me deu o dobro do valor. Eu conferi e voltei para informar que estava errado, que era a metade do preço. Ele então me disse que queria pagar pelo atendimento e se apresentou. Era Roberto Civita, diretor do Grupo Abril. Nos dias seguintes eu estava nas folhas da Revista Veja — relembra Beto.

Especialista em presuntos pata negra, Beto sempre incluiu o pernil espanhol no cardápio e já vendeu 1.890 peças do jamón

— Outro caso foi quando um argentino me pediu uma caipirinha e, de tanto ele elogiar, eu decidi convidá-lo para fazer. Eu o chamei e disse: vem aqui comigo que eu te ensino, é muito fácil. Então fizemos caipirinhas, comemos e conversamos dando muita risada. No dia seguinte, ele apareceu com alguns amigos e me disse: eles duvidam que você me ensinou a fazer caipirinha. Daí eu chamei os amigos deles para se sentarem e convidei o argentino para me ajudar a fazer e servir os amigos. Foi muito divertido. Ao final, ele me agradeceu e me presenteou com dois ingressos: “muito prazer, meu nome é Astor Piazzolla”. Era Piazolla, o maior nome do tango.

Dias depois, Beto foi destaque do jornal Clarín: ele ensinou Piazolla a fazer caipirinha.

Um mural de personalidade

Colecionando histórias divertidas e inusitadas, como a vez que um empresário paulista fechou o local numa tarde de sexta-feira para trazer seus amigos, Beto Barreiros ganhou personalidade e tradição com os pratos que viraram referência da culinária florianopolitana.

Além do pastel de camarão, o lombo de bacalhau é o prato mais vendido, feito com Ghadus Mohua, o melhor bacalhau do mundo e que vem da Noruega. O pastel de berbigão, tradição do litoral catarinense, também está entre os mais vendidos, assim como as ostras e os mariscos.

Mas o Box 32 é muito mais que boa culinária – com ingredientes realmente de qualidade. É democracia.

— O centro é isso, o Mercado é isso. Um espaço para todos, do mais rico ao menos favorecido. Da lagosta e o champagne mais caro ao mais simples pastel. A vida e a cultura da cidade acontecem aqui.

Beto mostra a foto que registra a visita de Kim Phuc, conhecida como a menina que apareceu numa foto da Guerra do Vietnã

Uma vida que Beto pendura nas paredes do bar. São retratos de personalidades e de pessoas que marcaram a vida do proprietário, como o primeiro cliente Harry Corrêa.

— Ele pediu um cafezinho. Quando entreguei, eu disse: é por conta da casa, o senhor é nosso primeiro cliente. Ele riu, me deu o dinheiro e falou: faço questão, para dar sorte.

Se foi sorte ou muito esforço, fica a critério do cliente… mesmo porque, por aqui, o cliente sempre tem razão.

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