Saiba como vivem os cães catarinenses que ajudam no resgate das vítimas de Brumadinho

"Nós precisamos de cães extremamente felizes", conta o coordenador da Força-Tarefa de Cães do Corpo de Bombeiros de SC

(Foto: Arquivo pessoal / TC Parizotto)

As imagens dos cães de busca em Brumadinho, Minas Gerais, chamam atenção pela competência e disposição dos animais do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina. Treinados pelo 14º Batalhão de Bombeiro Militar de Xanxerê, no Oeste catarinense, eles são referências nacionais em buscas em desastres naturais e urbanos e foram convocados para procurar as vítimas soterradas pela lama que inundou a região depois do rompimento de barragens da empresa mineradora Vale.

De raça labrador, Hunter ficou famoso nas redes sociais depois que o vídeo dele trabalhando em Brumadinho foi publicado. Nas imagens, o cachorro e seu dono encontram uma das vítimas da tragédia, já sem vida.

A ação foi enaltecida pelo governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, que publicou um vídeo em sua rede social, com a hashtag #OrgulhoDeSC.

— O cabo BM Fumagalli e o cão Hunter, do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, são os personagens que fecham o nosso dia de trabalho com aquele exemplo que enche a gente de orgulho. Mesmo num cenário de extrema dificuldade e comoção, a dupla vai cumprindo a missão de ajudar as famílias das vítimas da tragédia em #Brumadinho. Muita força aos catarinenses que transformam um trabalho de referência técnica em um gesto de solidariedade desta grandeza.

Com três anos de idade, Hunter faz parte da equipe de cães de Santa Catarina. O dono, Cabo Fumagalli, passou por 300 horas de treinamento em Xanxerê, no Centro de Formação em Desastres Urbanos, realizou três cursos e só então recebeu o filhote, com quem passou 18 meses treinando em Curitibanos, no Meio Oeste, antes de realizar a prova e certificação no 14º Batalhão de Bombeiro Militar de Xanxerê.

Ele é o único da corporação que não nasceu no estado. Os demais, que estão divididos nas corporações de Itajaí, Brusque, Lages, Curitibanos, Xanxerê, Canoinhas, Chapecó e Maravilha, fazem parte de uma linhagem de cães de treinamento que já está na sexta geração.

— Como inexistem no Brasil labradores de uma linhagem de trabalho, nós estamos desenvolvendo nossa própria linhagem. Estamos com uma cachorra esperando filhotes, indo para a sexta geração de cães, onde nós cruzamos esses cães que têm um destaque maior e os selecionamos através de uma seleção genética: nós fazemos uma série de exames e avaliamos a pré-disposição deles para terem alguns tipos de doenças ou algumas questões que não são próprias para o trabalho que eles desenvolvem — comenta o tenente-coronel Walter Parizotto, coordenador da Força-Tarefa de Cães do CBMSC.

Dessa geração de filhotes, três estão atuando em Minas Gerais: um por SC, um pelo RJ e outro por SP (Foto: Arquivo pessoal / TC Parizotto)

Melhor amigo do homem, ou melhor, do soldado

O cuidado com a reprodução dos cães é apenas um detalhe de toda a preparação para enfrentarem trabalhos de horas em meio aos escombros, lama, calor, mata e desafios tão grandes. Segundo o tenente-coronel Parizotto, o fato da corporação não ter canil é o que faz os cães de Xanxerê serem tão especiais.

— O filhote, quando é selecionado, passa por uma fase de formação, que nós chamamos de imprinting de desenvolvimento de instintos naturais, e posteriormente ele é entregue a um bombeiro que leva esse filhote para viver com a sua família — diz o coordenador, enfatizando a importância desse relacionamento com o melhor amigo do homem.

O filhote faz parte da família dos bombeiros (Foto: Arquivo pessoal / TC Parizotto)

A relação entre soldado e filhote é chamado de binômio. Para o treinamento, o cão precisa encarar a rotina como uma brincadeira e o objetivo é deixá-lo “viciado” em brincar com seu dono.

— Nós tornamos os nossos cães compulsivos pela brincadeira. Precisamos de cães extremamente felizes e extremamente dependentes do carinho e do contato com o ser humano, que é o que o motiva a vencer tantos obstáculos. O fato de serem cães muito dengosos e mimados, essa dependência emocional, é o que dá um acréscimo a qualidade técnica dos nossos cães.

(Foto: Arquivo pessoal / TC Parizotto)

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