Camille Reis: cantor sertanejo Leo Chaves, da dupla Victor e Leo, aprendeu a lidar com a fama a partir da neurolinguística e filosofia

Leo Chaves - Betina Humeres, Diário Catarinense

Leo Chaves – Foto Betina Humeres, Diário Catarinense

Alto, forte, bonitão, famoso, ídolo da música sertaneja. Era isso que eu sabia do Leo Chaves, da dupla Victor e Leo, quando cheguei para entrevistá-lo. Então, imaginem a minha surpresa quando aquele homão supereducado e simpático começou a citar Nietzsche, Schopenhauer, Jean-Paul Sartre e Heidegger.

Depois de um período turbulento provocado pela fama, Leo descobriu na neurolinguística e na filosofia um novo sentido para a vida – e decidiu compartilhar isso nos palcos como palestrante. De passagem pelo Estado, onde veio lançar o livro No Colo dos Anjos, obra de ficção que também pode ser enquadrada como autoajuda, ele me recebeu para um bate-papo franco e reflexivo.

Como surgiu o estudo da neurolinguística e inteligência emocional?
Começou quando me tornei presidente do Instituto Hortense, projeto social lançado ano passado que atende escolas públicas treinando professores e fortalecendo a habilidade socioemocional dos alunos. Tive acesso a esse conteúdo através de um amigo, o psiquiatra Augusto Cury, e me encantei com esse universo das emoções, do funcionamento da mente. Quando eu vi o impacto que causou na minha vida pessoal e profissional quis entender uma forma de amplificar esses conceitos.

Nas suas palestras você cita muito o seu exemplo pessoal. A fama te fez mal?
A dependência é algo que está presente no universo da celebridade, a dependência de holofote, das câmeras. Quanto mais você se entrega ao glamour mais dependente você fica. Quando percebi isso, decidi descer do palco, porque o artista normalmente aprende a subir mas não aprende a descer, só desce a escada mas não sai daquele personagem. Isso vira um problema sério porque você não se reconhece mais e a consequência são transtornos emocionais, depressão e vícios.

Hoje você consegue separar bem?
Não é possível 100%, mas consigo bem mais do que antes. Lembro que no início da carreira eu ficava louco para que alguém viesse tirar uma foto, pedir um autógrafo. Só que depois do sucesso essas fotos se transformam em 400 por dia! Isso deveria ser 400 vezes mais prazeroso, mas não é. É paradoxal, mas exemplifica o que acontece com uma celebridade quando ela sobe no palco e não consegue descer, quando começa a olhar a humanidade por cima.

O seu livro aborda essas questões?
Aborda e faz uma analogia com o cotidiano, com outras profissões. A liderança normalmente corrompe o ser humano, liderança com fama é pior ainda. Ou te traz benefícios ou vai ser um problema na sua vida. O livro é uma ficção, o personagem chega no auge da fama e de repente se vê escravo disso e busca fugas, no caso as drogas, fica em coma e, quando sai, vê que a carreira está lá embaixo. Aí ele conhece um cara mais velho, e o livro inteiro é esse resgate.

Você deveria lançar um livro sobre como administrar o tempo. Onde arranja tempo pra fazer tanta coisa?
Não posso dizer que às vezes não fico cansado, é natural. Também não posso dizer que isso não me traga problemas de vez em quando, como a angústia da distância da família e tudo mais, mas acho que a forma como você lida com tudo isso é que faz diferença. Tem que enxergar o lado bom das coisas. Decidi construir uma carreira de escritor e palestrante e estou me dedicando a isso, sem me tornar refém.

Quais são suas dicas sobre isso?
São três pontos importantes: ter uma disciplina direcionada. Tem muita gente que tem disciplina pro happy hour, pro futebol, mas não para o que é o seu objetivo. O segundo é ter uma postura ativa, parar com essa coisa do “mas”. Tem gente que põe “mas” em tudo. Surpreenda as pessoas, faça mais do que o necessário, se esforce. E por fim você precisa amar o que faz. As pessoas querem amor naquilo que fazem sem amar. O melhor exemplo é o de uma mãe, que se doa sem se importar com o que vai acontecer. Organização também é fundamental, saber separar o lado familiar, profissional, espiritual, saúde, amigos.

Você consegue ter equilíbrio para se dedicar à família?
Não consigo ser nota 10, mas a gente pode pelo menos mirar em vez de cruzar os braços e sentar na poltrona do conforto. A questão de família e filhos poderia ser um problema quando se diz respeito a uma agenda intensa, mas quantidade não é qualidade. Houve um tempo em que eu era muito mais presente em casa e muito mais distante dos meus filhos, não entrava no universo deles e não deixava que eles entrassem no meu. Então não importa se você encontra com seu filho uma vez por semana ou 10 vezes, não é o número que vai dizer a qualidade da sua relação com o seu filho, mas sim o tipo de diálogo que você tem com ele.

Você conheceu sua esposa antes do sucesso. Foi difícil manter o casamento?
A maior revolução que tive na vida foi a fama e eu tive que me adequar, eu e minha família. Claro que escorreguei muito, caí algumas vezes, me tornei escravo durante um tempo, mas aprendi a lidar com isso. Entender que você é um ser humano como qualquer outro me ajudou a manter o equilíbrio.

Qual a sua relação com Santa Catarina?
Eu adoro Santa Catarina, o nosso DVD gravado ao vivo em Floripa com 150 mil pessoas marcou a nossa carreira. Eu gosto das praias e do povo, sinto que existe uma cultura educacional forte, com mais raízes, com uma essência verdadeira e as pessoas valorizam isso.

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