Camille Reis: Magic Paula se consolida como gestora esportiva e chega a SC para acompanhar as finais do estadual de basquete

Magic Paula - Foto Divulgação

Magic Paula – Foto Divulgação

Uma das maiores referências do esporte nacional, Maria Paula Gonçalves da Silva, ou Magic Paula como ficou conhecida, fez parte de uma geração que elevou o basquete do Brasil a outro patamar. Foram 28 anos de dedicação às quadras e uma “aposentadoria” muito bem planejada. Formada em Educação Física, quando parou de jogar ela começou a estudar para iniciar sua carreira como gestora esportiva. Nos últimos 18 anos já comandou o centro olímpico de treinamento de São Paulo, foi Secretária Nacional de Esportes de Alto Rendimento, comentarista esportiva e fundou uma ONG, o Instituto Passe de Mágica, que desenvolve atividades de esporte educacional com cerca de 800 crianças e adolescentes.

A convite da Federação Catarinense de Basquete, Paula chega a Floripa na próxima sexta-feira para acompanhar as finais do campeonato estadual sub 12.

Você sempre foi conhecida pela postura firme dentro e fora das quadras. Como foi quando você decidiu parar de jogar?
Foi um momento muito difícil e no Brasil a gente não recebe qualquer preparação ou destreinamento, como se chama. Diferente de outras profissões no esporte você para muito cedo. Como sempre fui curiosa, prestava atenção em ex-atletas que não conseguiam segurar a peteca e resolvi um tempo antes fazer terapia, queria entender um pouco esse pós, esse day after.

E foi muito difícil quando esse momento chegou?
Acho que eu consegui escolher bem o momento de parar porque é diferente de você ter uma contusão e ter que parar ou pararem com você porque a performance não é mais a mesma. Uma das coisas que o atleta sofre também é ficar no ostracismo. Como eu sempre fui mais na minha, nunca gostei de mídia, acho que foi mais fácil.

Qual a sua dica pra se reinventar na carreira de forma mais tranquila?
Nós somos muito resistentes e acho que a primeira coisa a fazer quando se decide mudar de rumo é entender que não dá pra levar o padrão do que você fazia antes para o que você se propõe a fazer depois. Quando eu era atleta tinha que decidir tudo em 30 segundos, aí comecei na área de gestão e queria que as coisas fossem resolvidas do mesmo jeito, mas tive que me adaptar. Outra coisa é que você precisa fazer algo que te dê prazer, felicidade, não só dinheiro.

Como se sente com todas essas notícias sobre corrupção nas Olimpíadas do Rio?
Para alguns atletas o sentimento talvez seja de traição, de que eles estão lá ralando e as pessoas estão pensando em benefício próprio. Para outros é de indignação. No meu caso é de eu já sabia, a gente sempre escutava mas faltava um empenho maior da classe do esporte de ir atrás. Acabou que algo que eles queriam muito, que era sediar uma olimpíada, foi um tiro no pé, pois a própria olimpíada expôs essa ferida do esporte no Brasil.

De que forma você se envolve hoje com as questões relacionadas ao basquete no Brasil?
Muito pouco, acho que é cultural do basquete que os ídolos não estejam próximos, não sei se é medo de expor a fragilidade, mas eu nunca fui chamada pra ajudar. E também tem o meu interesse de estar em algumas gestões porque não quero entrar em roubada. A gente tá vendo a forma como o dirigente atual pegou a entidade com uma dívida de mais de 40 milhões de reais, dívida que não foi feita com atleta, alguém desviou, é muito triste.

Você criou uma ONG, o Instituto Passe de Mágica, voltado a crianças em situação de vulnerabilidade social. Como acha que o esporte pode ajudar na transformação do País?
As instituições que trabalham com esporte educacional, que é o que a gente faz, acabam preenchendo uma lacuna do governo. Mas hoje vivemos um momento de dificuldade, principalmente de captar recursos. Há 13 anos, quando a gente começou com o Passe de Mágica, era meia dúzia de instituições, hoje tem muito mais gente, e como as entidades acabam sobrevivendo com leis de incentivo há sempre uma dúvida se vai ter recurso no ano seguinte.

Qual sua relação com Santa Catarina? Conhece o Guga, nosso ídolo maior do esporte?
Infelizmente não conheço o Estado da forma que gostaria. Sei que Santa Catarina tem muito a oferecer e hoje estou mais próxima porque existe um trabalho muito bem feito com basquete, de fomento, educação com jovens e crianças. O Guga também não conheço como gostaria, mas ele é uma inspiração para todos, esse jeito humilde. Acho que a gente precisa de ídolos que não tenham vaidade, que sejam autênticos e o Guga é um pouco de tudo isso.

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