Camille Reis: Mãe e filha trabalham juntas como obstetras em maternidades de Florianópolis

Raquel e Luisa Aguiar - Foto Diorgenes Pandini, Diário Catarinense

Raquel e Luisa Aguiar – Foto Diorgenes Pandini, Diário Catarinense

Nas maternidades de Florianópolis não tem quem não as conheça. Obstetras por formação, as doutoras Raquel e Luisa Aguiar trabalham juntas na linda missão de ajudar no nascimento de bebês. O jeito apaixonado e alegre de ser parece estar no DNA já que as duas são mãe e filha, fato que por si só já chama atenção. Em 30 anos de experiência e mais de 4 mil partos realizados, Raquel vive um momento especial na carreira tendo a filha como parceira de trabalho. No dia a dia, a troca de informação é constante no consultório em que atendem. Em cirurgias, lá estão elas, lado a lado. No mês em que se comemora o Dia do Médico, bati um papo especial com as duas sobre essa relação de amor e parceria.

Depois de 30 anos de profissão, como é dividir essa missão de vida com a filha?
Raquel – É um prazer e um orgulho. Conseguimos unir experiência com atualização, essa troca faz com que a gente consiga dar um atendimento diferenciado, atuar em determinadas situações de forma a ter duas pessoas pensando, e é muito gratificante ver que a minha filha seguiu o meu “mau exemplo”, eu brinco.

De que forma a sua mãe te inspirou a escolher o mesmo caminho?
Luisa – A gente sempre teve uma personalidade muito parecida e ver a minha mãe atuar, o amor que ela tinha pelo trabalho, o quanto ela cresceu com a profissão, foi uma coisa que me inspirou bastante. E a gente sabe que não é só a parte bonita de trazer vidas ao mundo, tem toda a parte da dedicação. Eu imagino que tenha sido difícil para ela, já que ela estava na faculdade quando nasci, acredito até que ela se sentiu aliviada quando escolhi a medicina depois de ela ter passado tantas noites no plantão.

Raquel – Foi como um alívio para mim, porque eu achei que no início da minha carreira, com ela pequena, eu me dedicava ao trabalho e não convivia com ela. Quando ela me disse que ia fazer medicina, aquilo me despiu de uma angústia de achar que eu não tinha cuidado devidamente da minha filha, tirou aquela culpa que toda mãe tem.

Apesar da experiência, a Luisa também te ensina, eu imagino. O que você já aprendeu com ela?
Raquel – Na medicina a gente sempre está aprendendo, tem o que evoluir, e essa associação de técnicas mais novas, até essa coisa mais rápida de pensamento de hoje, ajuda muito. Seja num procedimento cirúrgico ou no diagnóstico das nossas pacientes do dia a dia, nós trocamos muitas ideias.

Luisa – Soma experiência com atualização, já que eu me formei há menos tempo. Fiz duas residências. Principalmente dentro do centro cirúrgico a experiência conta bastante, e eu fico muito mais segura quando a mãe está junto, na maioria das vezes nós estamos juntas. Só pelo olhar a gente já se entende, parece que a coisa flui melhor.

Como foi o primeiro parto que vocês fizeram juntas?
Raquel – No início eu lembro que ela ficou um pouco chateada, porque nas primeiras cirurgias ela só olhava. A primeira experiência foi com um bebê da família, a Valentina, minha sobrinha-neta, e a sala se encheu de alegria e amor. Então ali, olhando os olhinhos dela, eu tive certeza que ela ia querer seguir a profissão.

Luisa – O início foi angustiante, a primeira vez que eu entrei no centro cirúrgico passei um pouco mal, acho que todo mundo passa, e claro que no começo você fica um pouco mais temerosa e eu ainda tinha aquela coisa: será que vou suprir as expectativas da minha mãe? Hoje não tem mais essa cobrança.

E como toda relação também deve ter alguns atritos…
Luisa – Acho que essa coisa da velocidade da informação, de sermos de gerações diferentes… Na questão das redes sociais, por exemplo, é uma coisa que tenho que me doar muito mais. Se eu tivesse a mãe participando mais, seria bom, mas às vezes ela escreve de um jeito diferente e eu fico brava. Tem ainda os casos que a gente não concorda, é bom para o crescimento do caso, mas temos uma liberdade maior de falar que, talvez, se fosse outra pessoa, a gente não falaria. De resto são só coisas boas.

Raquel – Apesar de estarmos juntas nós mantemos o lado individual. Às vezes isso choca um pouco, até porque temos personalidades parecidas. Mas a gente se complementa e as vantagens são maiores que as desvantagens.

A dupla em breve pode se transformar num trio, já que a caçula da família também está cursando Medicina?
Luisa – Tomara! A gente está torcendo, mas as minhas pacientes falam que é pra ela fazer pediatria (risos). A gente quer que ela faça gineco/obstetrícia também.

Raquel – E eu que achava que não era influente, acho que fui, né? A Fernanda está no início da faculdade de Medicina, ainda não decidiu a especialidade, mas esperamos ter ela em breve participando junto com a gente.

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