Camille Reis: único centro privado de atendimento a transgênero do país fica em Blumenau

José Carlos Martins e Cláudio Eduardo de Souza - Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

Os médicos José Carlos Martins e Cláudio Eduardo de Souza – Foto Felipe Carneiro, Diário Catarinense

O fim da novela A Força do Querer não encerra um debate que ganhou força nos últimos meses graças à personagem Ivana, que se transformou em Ivan depois de descobrir que não se identificava com o sexo que nasceu. O que muita gente não sabe é que fica em Blumenau o único Centro de Atendimento a Transgêneros privado do país, que nasceu há três anos e atende pacientes vindos do mundo inteiro, competindo inclusive com clínicas da Tailândia, famosa pelas transformações.

Sob o comando dos médicos José Carlos Martins e Claudio Eduardo de Souza, que já operaram mais de 200 pacientes, uma média de cinco por mês, e possuem treinamento pelo Transgender Center, nos Estados Unidos, o centro realiza cirurgias faciais e corporais, sendo que apenas 10% dos trans chegam a fazer a mudança de sexo. Nesta entrevista à Versar, eles falaram sobre o atendimento e alguns casos marcantes de transformação.

Por que abrir o centro de atendimento a transgêneros em Blumenau?
Percebemos que não havia fronteira para os transgêneros, que se deslocavam em busca de atendimento qualificado. Elegemos Blumenau por se tratar de uma cidade de médio porte, segura, de fácil acesso e com ares europeus, um atrativo para os pacientes que chegam dos EUA, Canadá e Europa. O fato de termos uma experiência de 13 anos na cidade também facilitou a logística.

Como é feito o atendimento?
Como 70% dos pacientes moram na Europa, fazemos viagens para lá de orientação presencial e também passamos orientações prévias pela internet. Esse contato serve apenas para estreitar relações e trocar informações que vão ajudar na consulta que acontece alguns dias antes da cirurgia. Para a redesignação sexual (mudança de sexo) há necessidade de laudos psiquiátricos e psicológicos que autorizam o procedimento.

Todos que procuram o centro fazem a cirurgia de mudança de sexo?
Não, 90% procuram por feminização facial e modificações corporais associadas (lipoaspirações, cirurgias de glúteo), até porque a maioria é transexual de identificação, mas heterossexual de orientação. A feminização facial é o principal procedimento e consiste em remover e lixar os ossos da testa, avançar a linha do cabelo, mudar o formato do queixo e maçãs do rosto, diminuir o pomo de adão, aumentar lábios e nariz.

Como é feita a transformação?
Antes de iniciar um procedimento cirúrgico, o paciente deve estar há pelo menos um ano vivendo no gênero. Um homem precisa já estar sob efeito de hormônios e socialmente se apresentar como mulher. Casos de transição na própria clínica são exceções. Para a mudança de sexo é necessário um acompanhamento de dois anos por uma equipe de saúde mental que emite um laudo atestando a transexualidade e a rejeição ao órgão sexual.

Vocês poderiam citar alguns casos que chamaram atenção na clínica, sem expor o nome dos pacientes?
Há cerca de 4 meses, operamos um procurador, casado, pai de três filhos, que chegou para se transformar dizendo que sempre usou cabelo comprido e que agora o Estado teria que aceitá-lo por se tratar de um cargo vitalício. Ele fez prótese de mama, além de testa, nariz, contorno facial e maçã do rosto. Ficou 10 dias em Blumenau e saiu totalmente feminino. O interessante é que manterá a vida de casado e retornará em breve para fazer próteses de glúteo e lipoaspiração de abdômen.

Tem também o caso de um paciente de 54 anos que chegou até nós para consultar acompanhado da esposa e um histórico de agressividade e homofobia. Com cinco filhos de cinco casamentos diferentes, criou todos com uma cultura violenta e intolerante e hoje descobriu ser transexual, se vestindo de mulher aos finais de semana e ficando mais calmo com isso. Hoje seu maior desafio é fazer com que seus filhos o aceitem. Outro foi um advogado de Curitiba, professor de Direito, que se travestia no fim de semana, mas ninguém do convívio sabia. Mas ele tinha um perfil falso no Facebook, feminino, e um dia os alunos descobriram. Ele admitiu que era transgênero e que depois de aposentado iria fazer a cirurgia, então as turmas se reuniram e pediram para a universidade aceitá-lo assim.

Quanto custa a transformação?
Depende do que a face e o corpo necessitam para se aproximar do gênero pelo qual o paciente se identifica. Varia de R$ 18 mil a R$ 60 mil. Se levarmos em conta a terapia hormonal, cirurgia facial, corporal e redesignação sexual a paciente pode gastar ao longo de sua vida uma média de R$ 150 mil.

Por que no Brasil não é autorizada a mudança sexual de feminino para o masculino?
É considerada pelo Conselho Federal de Medicina como uma cirurgia experimental devido ao número de complicações e dificuldade de se padronizar uma técnica segura e eficaz.

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