Cannes 2018: proibição das selfies, exibição de “filme maldito” e desacordo com a Netflix

Cannes 2018
Cannes 2018

Muitas polêmicas movimentam os bastidores do Festival de Cannes 2018, maior reconhecimento do cinema depois do Oscar. A volta de um diretor considerado persona non grata pela organização do evento, a exibição de um filme visto como maldito pelos empecilhos que atrasaram sua conclusão, a baixa participação feminina entre os títulos que concorrem à Palma de Ouro e até o banimento da selfie entre o público prometem movimentar a premiação francesa, que inicia na terça-feira (8) e segue pelos próximos 12 dias.

O cartaz oficial que cobre o Palais des Festival homenageia o diretor mais hermético e contraventor do cinema, ícone da nouvelle vague, Jean-Luc Godard. O poster de tamanho gigante reproduz cena do filme O Demônio das Onze Horas (1965), em que os atores Jean-Paul Belmond e Anna Karina se beijam.

Confira, abaixo, as cenas de bastidores que já marcaram a premiação francesa antes mesmo de ter iniciado:

Portas fechadas para a Netflix

Uma das possibilidades com a parceria entre Cannes e Netflix era a exibição da obra inacabada de Orson Welles (C), com John Huston (E) e Peter Bogdanovich (D) no elenco. Reprodução / iMDB

Está confirmado: a Netflix não vai participar do Festival de Cannes. A gigante do streaming não aceitou a condição de aguardar três anos entre a estreia dos filmes nas salas de cinema e a difusão entre os assinantes da plataforma. Diante disso, o festival se recusou a exibir dois filmes da Netflix. O outro não se sabe o nome, mas o segundo é uma aguardada obra inacabada de Orson Welles, chamada The Other Side of The Wind, com pós-produção financiada pela Netflix.

A ausência do longa no circuito francês foi lamentada pela filha de Welles. O filme tem outros dois cineastas no elenco, Peter Bogdanovich e John Huston. Este fazendo o papel de um diretor consagrado que deseja retornar à produção com um filme que simboliza a revolução estética que o cinema sofreu durante seus anos de ausência.

Sobre a recusa em aceitar a norma de Cannes, Ted Sarantos, diretor de conteúdo da Netflix, disse que o festival francês “precisa se modernizar”.

Muitas no júri, poucas na competição

Cate Blanchett presidirá o júri do Festival de Cannes. Jason Merritt / Getty Images/AFP

O Festival de Cannes nunca teve uma presença marcadamente feminina. De acordo com a AFP, dos 268 cineastas premiados com as principais distinções em 71 edições do evento, apenas 11 foram mulheres. O número representa 4% do total.

A falta de representatividade se repete em 2018. Poucos filmes de diretoras foram incluídos na seleção dos títulos que concorrem pela Palma de Ouro, reconhecimento máximo da premiação. De uma lista de 21 filmes, apenas três são dirigidos por elas: Lazzaro Felice, da italiana Alice Rohrwacher, Capernaum, da libanesa Nadine Labaki, e Girls of the Sun, da francesa Eva Husson. Selecionador oficial dos longas, Thierry Frémaux disse que as questões de gênero não influenciam na escolha dos filmes; a qualidade, sim.

— A seleção de Cannes nunca foi uma questão de gênero. Selecionamos pela qualidade, e se os escolhidos são filmes dirigidos por homens, o resultado espelha o que nos foi dado avaliar — disse Frémaux.

Nos bastidores, em compensação, elas devem dominar. O júri que elegerá as melhores produções é composto majoritariamente por mulheres, que serão lideradas Cate Blanchett, premiada duas vezes no Oscar — uma como melhor atriz coadjuvante por O Aviador (2005) e a segunda como melhor atriz por Blue Jasmine (2013). Hoje, é uma das atrizes mais prestigiadas no circuito de filmes de autor.

O fardo de Lars Von Trier e Terry Gilliam

Banido do festival em 2011, Lars Von Trier foi considerado “persona non grata” — chegou a fazer piada do título. Johannes Eisele / AFP

Depois do escândalo que provocou em Cannes em 2011 dizendo que “entendia Hitler”, declaração que o levou a ser banido do evento, o diretor dinamarquês Lars von Trier apresentará o filme fora de competição, The House that Jack Built, com Uma Thurman e Matt Dillon no elenco.

Outra participação aguardada é a do longa The Man Who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam, que levou quase 20 anos para ser finalizado e deve ser exibido no encerramento do festival.

Em 2011, após a declaração polêmica e apesar de um pedido de desculpas, Lars von Trier foi declarado persona non grata, uma punição sem precedentes. Provocativo, apareceu no Festival de Berlim em 2014 usando uma camiseta com o logo de Cannes e os dizeres “persona non grata”.

“The Man Who Killed Don Quixote” ficou marcado na carreira de Terry Gilliam como o “filme maldito”. Reprodução / iMDB

Considerado por muitos um projeto “maldito” de Terry Gilliam, o filme de fantasia The Man Who Killed Don Quixote começou a ser produzido em 2000 e quase não teve a possibilidade de estrear devido a um conflito judicial com o produtor português Paulo Branco, que, segundo Gilliam, “tentava arrecadar o máximo sem de fato ter produzido o filme”.

Em 2000, Gilliam teve que interromper a filmagem de sua adaptação livre da célebre obra de Miguel de Cervantes devido a uma série de infortúnios, como inundações no set de gravação e uma hérnia de disco sofrida pelo já falecido ator francês Jean Rochefort. Ele tentou ressuscitar o projeto em várias ocasiões, deparando-se com a falta de financiamento, até conseguir filmar o longa em 2017. No elenco estão os atores Adam Driver e Jonathan Pryce.

No Brasil, a longa e extenuante produção de Gilliam é comparada ao megalomaníaco trabalho de Guilherme Fontes em Chatô, O Rei do Brasil (2015), que, entre idas e vindas, também levou quase 20 anos para ser lançado.

Nada de selfie no tapete vermelho
Atores, diretores e demais protagonistas da premiação deste ano não poderão perder tempo fazendo selfies no tapete vermelho estendido na entrada do Palais du Festival. Na visão de Thierry Frémaux, organizador do evento, o costume da selfie é “extremamente ridículo e grotesco”, além de desorganizar o cronograma.

Frémaux deu a declaração há três, na tentativa de constranger público e convidados. Diante do descontrole das selfies, emitiu a decisão de proibi-las oficialmente.

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