Cansei de palavras em inglês, de “startãps” que fazem “éps” com “faunding” de “vêntur céptalists”

Em novembro estou tão cansado que entro em um modo de conversa standby

cansaço
Foto: Pexels

Já faz uns três anos que chega novembro e sempre – todo novembro! – eu estou completamente exausto querendo desistir de tudo e ir morar na praia. Novembro é o mês em que eu cansei de tudo: não aguento mais viajar; não aguento mais fazer checkin em hotel (especialmente aqueles em que você tem que preencher um papelzinho e depois o moço do balcão pergunta tudo de novo pra você porque não entendeu a sua letra); não aguento mais gente que manda áudio longo no Whatsapp; não aguento mais celular caindo naquele vão do banco do carro que não dá pra pegar de jeito nenhum; não aguento mais elevador que abre e você pergunta: “está descendo?” e uma pessoa lá dentro diz: “não, está subindo”.

Não aguento mais gente que insiste em colocar uma mala do tamanho de um container no compartimento do avião enquanto todo mundo espera de pé sem entender qual aula de física que este cidadão faltou; não aguento mais garçom que pergunta se a água é com ou sem gás (é claro que é sem gás!); e não aguento mais gente reclamando que está cansado e que só quer desistir de tudo e ir morar na praia.

Em novembro estou tão cansado que entro em um modo de conversa standby. As pessoas falam comigo, eu respondo normalmente, mas na verdade estou com a cabeça longe, estou imaginando-me de calção, barriga branca e nariz vermelho, chutando a espuma do mar dos Ingleses, tomando drinks feitos no abacaxi debaixo de um guarda-sol, pendurando a conta no quiosque da praia, a brisa batendo e eu sem nenhum e-mail pra responder. Sem celular, sem wifi, sem grupo de Whatsapp.

Cansei do formato do celular na minha mão o tempo todo. Cansei de olhar pra tela de três em três segundos. Só quero coisa analógica, quero ler jornal, sujar os dedos com a tinta preta, quero ler uma enciclopédia Barsa, datilografar em uma Olivetti, quero andar de bonde, não aguento mais nada. Não aguento nenhuma modernidade, Netflix, cupcakes, estampas de unicórnios. Não estou nem aí se alguém disse algo no Twitter, se o Instagram tem um novo filtro que tira todas as espinhas da nossa cara. Chegou novembro e eu estou insuportável.

Cansei de coisas que todo mundo gosta. Cansei de palavras em inglês, de “startãps” que fazem “éps” com “faunding” de “vêntur céptalists”, de amigos que estão analisando um “bísnes”, com o “bãdjet” apertado tentando alcançar o “breique íven”. Não sei nem se quero encontrar mais pessoas. Acho que já encontrei pessoas demais esse ano, está bom assim. Eu deveria ter contado a quantidade de pessoas que eu encontrei. Acho que deveríamos ter uma contagem anual de pessoas que encontramos e quando chegasse em determinado número você seria mandado para uma praia deserta, poderia ficar lá até o Réveillon. Estou tão cansado que imagino um Réveillon sozinho. Eu leria um livro até as oito da noite, tomaria uma sopinha e iria dormir com protetores de ouvido para não ouvir os fogos. Coitados dos cachorros. Cachorros me agradam. Ainda não cansei de cachorros. Acho que não estou tão cansado assim.

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