Carol Passos: Maria Bethânia faz show intenso e apaixonado em Florianópolis

Foto Luiza Filippo

Intensa e visceral, uma apaixonada, louca alucinada, meio inconsequente. Maria Bethânia, no auge dos 52 anos de carreira, ainda se rende às canções de amor e paixão – algumas com um toque de desespero – para sambar no palco rindo das desventuras da vida. Bethânia, que fez show neste sábado em Florianópolis, mostrou porque é a diva da música brasileira.

Acompanhada de uma banda impecável, a intérprete cantou clássicos da MPB e do samba e declamou trechos e poesias, quase sem intervalos. Bethânia é teatral. Joga os longos cabelos soltos e, solene, coloca a mão no peito, pois o samba também é feito de dor.

A plateia do Centrosul não se acanhou de gritar “Linda”, “Maravilhosa” em alguns momentos que a baiana cantou à capela –  elogios que ela correspondia com um sorriso. O Que Queres, a segunda música do repertório, logo no início ganhou o público. E foi quase impossível continuar sentada acompanhando a música. Aliás, em vários momentos, a percussão de Marcelo Costa convidava a dançar. Mas nos contivemos. Na penumbra, a gente percebia as silhuetas balançando de um lado para o outro seguindo as melodias e, muitas vezes, levantando uma das mãos como quem agradece Bethânia por cantar “aquela música que eu amo”.

O repertório muito conhecido ajuda. Fera Ferida, uma das composições que mais marcaram a carreira da cantora – e uma das mais populares -, também levantou o coro, como se esperava. Aliás, todas as músicas têm um quê de quem deixou algo pra trás. A perda de amor, a saudade da Bahia, o temor por perder a liberdade de se expressar (cálice, afasta de mim esse cálice) está tudo ali. Ainda falando em saudade, a cantora entoou o Frevo no 2 do Recife em homenagem ao percussionista e amigo Naná Vasconcelos, que faleceu em 2016. Também celebrou os grandes nomes da música declamando um por um o nome de seus compositores, inclusive o do irmão Caetano Veloso. E sobre Santa Catarina, exaltou Guga, Vera Fischer e o cineasta Rogério Sganzerla. Filha de Iansã, agradeceu aos orixás e pediu bênçãos a Floripa.

Entre seus compositores, Vinicius de Moraes foi um dos mais celebrados. Ela declamou Soneto de Fidelidade para depois seguir no samba chegando em Esotérico, de Gil. A apaixonada Bethânia, que não tem preconceitos com relação à música (poderia descrever aqui o fato dela ser geminiana, mas pouparei os leitores mais céticos), também conquista quando canta “do jeito que você me olha, vai dar namoro”. Neste ponto do show, todas as decepções e amores antigos já haviam se despedido. É a hora de levantar a poeira e dar a volta por cima. No fim, nos permitimos quebrar o decoro das cadeiras marcadas, levantamos e corremos para a fila do gargarejo. Bethânia cumprimentou os fãs permitindo que lhe tocassem as mãos, como quem encerra uma bênção. Pra fechar, depois de Explode Coração, cantou o samba O Que é, O Que é? pra dizer que a vida “é bonita e é bonita”.

Bethânia é mesmo intensa, tal qual a personagem Clara, do filme Aquarius, bem definiu.

Foto Luiza Felippo

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