Catarinense lança na Bienal de São Paulo livro sobre garotas de programa

Danielly Ribeiro acompanhou a rotina de prostitutas e a narra em Além dos Corpos. Para ela, estas mulheres são protagonistas de suas histórias

Danielly Ribeiro
Danielly Ribeiro (Foto: Eduarda Bittencourt/Divulgação)

Assim como tudo o que é considerado tabu, a prostituição carrega uma série de preconceitos e curiosidades que cercam o tema — muito pela falta de diálogo sobre ele. Para desmistificar o assunto e permitir uma análise mais profunda sobre a profissão e quem a pratica, a jornalista Danielly Ribeiro, 23 anos, optou por entrevistar profissionais do sexo para o livro Além dos Corpos, que foi seu trabalho de conclusão de curso em Jornalismo  e será lançado oficialmente neste sábado, dia 11, na Bienal do livro, em São Paulo.

Lá, a autora passará por uma sessão de autógrafos e conversará com quem passar pelo estande da editora Chiado Books, por meio da qual está lançando o seu livro.

Com nomes fictícios, cinco mulheres relatam no livro como optaram pela prostituição e o que as motivam a continuar trabalhando no ramo. Uma delas, por exemplo, já havia sido abusada diversas vezes na infância, então considera que dormir com estranhos para ganhar dinheiro é melhor do que os abusos que sofreu. Outra afirma não ter nenhuma história triste, e alega trabalhar com prostituição por causa do vício em sexo. Com histórias distintas entre si, é possível conhecer diferentes razões pelas quais elas resolveram exercer uma profissão tão julgada pela sociedade.

Estão envolvidas neste trabalho a ilustradora Ana Bonnassis (23 anos), a designer Antonella Vanoni (22 anos) e a fotógrafa Eduarda Bittencourt (19 anos). Em Santa Catarina, o livro será lançado no dia 23 de agosto, às 19h30min, na Estácio de São José, onde Danielly se formou.

Foto: Eduarda Bittencourt/Divulgação

Nesta entrevista, a autora fala sobre como foi escolher este tema, o processo de escrita e a publicação do livro por uma editora:

Como surgiu a ideia de tratar deste tema?

Eu sempre gostei e tive curiosidade por realidades que fossem diferentes da minha. Gosto de entender porque as pessoas escolheram fazer o que fazem e tive muita curiosidade  sobre garotas de programa. Nunca acreditei muito no discurso de que não tiveram outras oportunidades, ou que eram “sem-vergonha”, que não têm dignidade, não gostam de trabalhar, que querem uma vida fácil. Nunca acreditei nisso. Eu queria entender realmente porque elas estavam lá. Quando fui fazer meu TCC, queria tratar de uma realidade diferente.

Como foi esse processo?

Fui em uma casa de massagens e conversei com a proprietária, expliquei que queria conversar com elas para meu TCC. Ela me deixou entrar, disse que eu podia abordar as meninas, mas que ela não podia fazer as meninas falarem. Foi bem complicado, porque além de eu ser uma mulher estranha, elas temiam que eu fosse trabalhar, que fosse mais uma concorrente. Quando eu falava que queria entrevistar, elas meio que saíam correndo. Poucas ficaram perto para entender o que eu estava fazendo. Tive que ir conquistando.

Como foi o diálogo com elas?

Foi bem natural. Eu disse que queria saber a história de cada uma, que contassem como foram parar ali. Elas começavam a contar e iam puxando sempre coisas do passado, faziam conexão com alguma coisa que aconteceu. Eu não esperava ouvir as coisas que ouvi. Fui com um certo preconceito mesmo, por causa das coisas que a gente escuta. Eu esperava ouvir que elas estavam tristes por estar ali, que era difícil, que era ruim. E foi o contrário. Elas falaram que não queriam fazer aquilo pra sempre, que era difícil, mas elas eram muito protagonistas das próprias histórias. Não sentiam pena delas mesmas por estarem ali. Tinham um objetivo. Fui com várias perguntas preparadas e acabei não fazendo porque não faziam sentido. O que elas me contaram era o contrário do que eu imaginava.

Eu esperava ouvir que elas estavam tristes por estar ali, que era difícil, que era ruim. E foi o contrário. Elas falaram que não queriam fazer aquilo pra sempre, que era difícil, mas elas eram muito protagonistas das próprias histórias

Elas falaram sobre suas relações familiares?

Sim, eu sempre perguntava. A maioria delas falou que a família não tinha certeza, mas desconfiava, porque não falam com o que trabalham, mas sempre têm dinheiro. A família se preocupa, mas nenhuma disse que sofre preconceito.

E sobre a relação sexual com os clientes?

Elas falaram de tudo, foi bem chocante. Também é outra coisa que a gente acha que sabe que acontece, mas não sabe nada. Elas disseram que a maioria dos homens as procura para pedir que elas façam sexo anal neles. É uma coisa que a gente não imagina. Elas falam que foi chocante no começo, mas depois se acostumaram. Disseram também que a maioria dos clientes vai pra conversar, falar sobre suas famílias, sobre o quanto é frustrado. E os que transam, depois tentam se justificar.

Elas têm preocupação com gravidez e doenças sexualmente transmissíveis?

Sim, todas têm. Elas disseram que vão ao ginecologista com frequência, fazem exames. Todas usam camisinha, até na mão. E têm várias coisas que elas não fazem, são bem rigorosas.

Mudou sua visão sobre essas profissionais?

Eu sempre quis entender. Mas pensava que elas não tivessem outras oportunidades. E conhecendo, eu vi que não é isso. Que elas escolheram. As vezes porque gostam, ou sabem fazer. A gente vê elas um pouco como vítimas, mas não é o que elas querem. Elas são muito seguras do que estão fazendo. Eu olho pra elas com mais sensibilidade. Não só pra elas, mas para todas as realidades que eu não conheço.

Como o projeto deixou de ser um TCC pra virar um livro lançado na Bienal de São Paulo?

Foi bem inesperado. Ainda nem caiu a ficha. Eu apresentei pra minha banca e foi muito elogiado. Disseram que eu devia procurar uma editora, mas eu não levei muito a sério. Divulguei o PDF no meu Instagram e muita gente leu e me deu um feedback positivo, então pensei que talvez fosse legal publicar. Procurei umas editoras e fui mandando, sem expectativa nenhuma. Mas a Chiado respondeu, e aí foi acontecendo.

Você acredita que esse livro pode mudar o modo como as pessoas olham para estas profissionais?

Meu objetivo é que elas falem por elas mesmas e que as pessoas tiram as conclusões a partir disso. A gente tem que ouvir elas, e debater a partir da realidade, e não de opiniões que a gente escuta de pessoas que não conhecem. Espero que as pessoas a vejam de maneira diferente, sem julgar. Muitos olham para elas como objetos, como corpos que estão ali para servir. Mas além destes corpos, tem pessoas, com suas histórias.

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