Qual a causa da depressão?

“A minha vida perdeu o sentido”. Esta é uma frase comum entre as pessoas que sofrem com a doença

qual a causa da depressão?
Foto: Jessé Giotti, BD, 29/6/11/Diário Catarinense

A depressão sempre me chamou a atenção. Não tenho certeza se já tive. Deprimida, sem dúvidas, já fiquei. Não me saí muito bem diante de algumas das surpresas da vida, e dormir bastante foi uma das minhas fugas. Seguia meu trabalho, conversava com os meus, mas dormir me atalhava o peso do dia. Hoje ainda tem horas que me superestimo — e acabo achando que dou conta de tudo, e ainda tem horas que não me acredito, como se a vida fosse uma equação muito difícil de resolver.

Nessa variação de crenças estou sempre aprendendo sobre mim e sobre quais são, de fato, as minhas capacidades e as minhas características. Das coisas que eu esperava antigamente, uma era pela supermotivação para fazer as coisas — como se a empolgação fosse sustentável diariamente. Quando eu ficava normal ou entristecida, me frustava — ao invés de entender que o buraco faz parte de algumas estradas. Mesmo sabendo disso, nem sempre me saio bem – mas me sinto no conforto de pertencer a uma maioria.

Mas semana retrasada tive uma conversa muito rica com uma pessoa que está em depressão. Disse que durante a internação foi vítima e testemunha de alguma insensibilidade — que o médico disse que era “natural” que ela estivesse mal porque está desempregada — procurando dar nome e razão para a angústia que ela sente – que sempre, na depressão, é inominável. A angústia e o vazio desse quadro não tem origem única, nem diagnóstico comum. É um afastamento da identidade e uma perda real pela graça nas coisas.

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Com cada uma das pessoas com quem me relaciono que foram diagnosticadas com depressão, conversei procurando entender — assim como o médico — o que aconteceu no passado, se haviam segredos, se houve traição, abandono, agressão. A gente quer entender. Desprovida de todo julgamento, senti muita vontade de ajudar e uma grande curiosidade — mas não achei uma linha comum. Todos tinham histórias diferentes. Todos são completamente diferentes. Gastei um tempo dos bons pensando profundamente sobre qual poderia ser a razão desse acidente que a gente sofre em nosso corpo emocional, que tanto nos distancia da necessidade do nosso corpo físico. Até que encontrei uma frase comum a todos, enquanto encostava nas mãos dessa pessoa com quem conversei. Ela disse, como os demais: “a minha vida perdeu o sentido”.

Entendi tanta coisa! Entendi que o que mais queria quando não estava legal, e o que sempre quero nessas horas é um “mãos dadas”. Um toque, um tempo em mim. Se as respostas são complexas demais, estamos longe da solução. A natureza das coisas é simples. Amor, afeto, abraço, beijo, olhar, grama, sol, chuva — natural, bonito, profundo.

Quando a gente escuta que perdeu o sentido pensa logo que a pessoa perdeu as metas, os sonhos. Que está sem ter pelo que lutar. Mas o que eu entendi agora é que não é isso!
Quando nós estamos distantes de nós, o sentido que se perde é o do toque. Carentes de um olhar que nunca vem, afastado do hábito de ser tocado e de se tocar, todos os outros sentidos vão desaparecendo. Então para quê tudo isso que eu carrego todos os dias, se não nos tocamos mais?! “Você não se toca?!”.

A gente vai ganhando idade e vai tendo experiência. Sempre me vi com a idade que tenho hoje, feliz e mais plena — sem tantos altos e baixos, nem tanto sono — e estar com 35 anos animada com o presente e o futuro tem tudo a ver com a gente se tocar: Eu existo pra mim, antes de existir para os demais. Parte do que repito diariamente é o desejo estar ao meu próprio lado todos os dias — e que eu conquiste a minha cura enquanto toco e encosto o outro — na profunda troca de afeto que exite nas relações mais verdadeiras.

Na minha dor quando encosto em outro, me curo — daí logo se abre a verdadeira razão para tudo isso: ser o toque que falta, quando o outro não se toca.

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