Instituto certifica que animais criados para consumo tiveram vida digna

Catarinense Luiz Mazzon fala sobre a atuação do Certified Humane Brasil, voltado para a melhoria da vida dos animais criados para a produção de alimentos. Foto: Tiago Ghizoni

Uma pesquisa encomendada pela ONG Mercy For Animals e divulgada no final de 2017 mostrou que 81% dos consumidores se preocupam com a maneira como os animais são tratados pela indústria alimentícia, e 72% acreditam que deveriam estar a par do sofrimento contra animais na produção do alimento. O Instituto Certified Humane Brasil certifica, por meio de um selo, que os animais criados para consumo humano tiveram uma vida digna e de acordo com as regras do bem-estar, como estar livres de fome, sede, dor, medo e desconforto, ter liberdade para expressar os comportamentos naturais da espécie, entre outras. Bati um papo com o diretor geral para a América Latina, o catarinense Luiz Mazzon, para entender melhor a atuação do Instituto.

Você é administrador. Como que esta questão surgiu na sua vida?

Trabalhei como diretor da Ecocert Brasil, uma certificadora de produtos orgânicos francesa cuja filial brasileira fica em Florianópolis. Ela tinha uma parceria com uma ONG americana chamada Humane Farm Animal Care, que é quem criou o programa de certificação de bem-estar animal para animais voltados ao consumo humano. Em 2016, passei a cuidar dessa certificação. Criei uma entidade sem fins lucrativos, o Instituto Certified Humane Brasil, cuja missão é representar a HFAC na América Latina. Minha família sempre teve contato com o campo, meu pai era agrônomo, mas foi o acaso que me levou a trabalhar com isso. Vi que o potencial para o bem-estar animal era muito grande.

E você chegou a mudar seus hábitos alimentares depois que começou a trabalhar com isso?

Tento priorizar alimentos cuja forma de produção eu conheço. Mas não dá para comer só isso porque é mais difícil de encontrar, principalmente aqueles com o selo de bem-estar animal. Ainda não tem muitos no Brasil, apenas ovos e frango por enquanto. É uma coisa nova, mas está crescendo. Tenho falado com várias cooperativas de suínos do Oeste catarinense que estão interessadas em certificar, por exemplo. No Chile, até o ano passado tínhamos apenas um cliente, e agora vamos fechar com mais três.

Estamos em um país em que tem gente que não pode nem escolher o que come. Então, quem é o público que se preocupa com essa questão?

O perfil do consumidor que aprecia isso é, no geral, bem parecido com o de orgânicos. Tem poder aquisitivo mais alto e geralmente é universitário ou mais jovem. Hoje o orgânico está presente em todo o país, não é mais nicho. O objetivo é tornar o selo de bem-estar animal tão conhecido quanto o selo de orgânico. Ele permite ao produtor comunicar ao consumidor final que ele trata os animais de forma diferente. O programa pretende criar uma demanda, para que o consumidor exija esse selo dos produtores.

O Instituto faz a sua parte, mas o que teria que mudar para que os animais sejam tratados de uma forma melhor?

Um cliente nosso falou que o que deu o clique nele após a nossa inspeção foi quando ele passou a ver os animais como indivíduos, e não apenas como “máquinas” de produzir alimentos. Quando você visualiza isso, tem um olhar diferente. Essa percepção é uma coisa óbvia, mas todos estão tão acostumados a vê-los de outra maneira. Temos que perceber aquele ser vivo como alguém que merece ter uma vida boa.

Para movimentos como o veganismo, os animais não devem ser criados ou abatidos para consumo humano. Como vocês respondem a isso?

A gente recebe críticas às vezes. Nosso argumento para isso é que a missão do Instituto não é promover o consumo de carnes, ovos ou leite, e sim promover o manejo com bem-estar. E a gente não ignora que a humanidade come carne, e não vai parar de comer. Bilhões de animais são criados para isso, e a maioria de uma forma horrível. A gente pelo menos faz alguma coisa por eles. Um vegano talvez ajude a salvar a vida de algumas dezenas de animais. Nesse ano, nós vamos atingir a marca de 1 bilhão de animais tratados de forma diferente.

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