Cerveja é coisa de mulher: elas se destacam na produção cervejeira em Santa Catarina

Em um mercado ainda muito masculino, elas lutam para conquistar seus espaços e pela igualdade dentro do setor. Na semana que antecede o Festival Brasileiro da Cerveja, reunimos seis histórias de mulheres que estão fazendo acontecer neste universo

Fernanda Meybon (Foto: Stivy Malty/Divulgação)

Por Carol Sperb/Especial

Por muito tempo a mulher era usada apenas como parte do marketing das marcas de cerveja. Hoje essa não é mais a realidade. Ainda bem. Elas ocupam os mais diversos cargos ligados ao setor – desde a criação de receitas até no ensino sobre o assunto. Isso, claro, sem esquecer o consumo: todos os dias, nas redes sociais e na vida, se comprova que cerveja é bebida de mulher, sim, e que não existe exclusividade quando o assunto é sabor que agrade a elas.

Segundo a história, a participação feminina na produção caseira começou muito antes dos homens. Isso porque enquanto eles saíam para caçar ou guerrear, elas eram as responsáveis por todo alimento e bebida em casa. E se hoje este mercado está em expansão, as mulheres são peças fundamentais deste percurso.

O setor cervejeiro está a pleno vapor no Brasil. Só em 2018, foram 210 novas fábricas instaladas, totalizando 889. Fazendo um panorama, há 10 anos este número não passava de 250 de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Na semana que antecede o Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau, que reúne muitas dessas mulheres para analisar os rótulos, expor suas receitas e ensinar sobre o tema, reunimos histórias que mostram que, em Santa Catarina, há inúmeras possibilidades para que elas atuem neste setor.

Foco em produzir

 

Jéssica Jaqueline Jaguela (Foto: Divulgação)

Jéssica Jaqueline Jaguela diz que sempre teve interesse por cerveja, mas nunca imaginou trabalhar com a bebida. Natural de Ponta Grossa (PR), ela está morando em Blumenau e atuando na produção da Cervejaria Alles Blau através de uma consultoria nacional na área. O crescimento do mercado foi o que atraiu a atenção da engenheira agrônoma que tem duas indústrias do segmento no currículo.

Aos 22 anos, ela acredita que as oportunidades para a formação de uma carreira no mercado cervejeiro é o que atrai muita gente – e as mulheres, claro.

— Lidei com o machismo, claro. Existe um preconceito com as meninas que trabalham nisso, especialmente quando são jovens. Mas nunca deixei que isso abalasse a busca dos meus objetivos — afirma.

Estudar cerveja

Luana Lechenakoski de Oliveira (Foto: Divulgação)

Luana Lechenakoski de Oliveira tem 23 anos e é natural de Curitiba (PR). Ela mudou de vida em fevereiro de 2018 para estudar no primeiro curso de Engenharia de Produção Cervejeira fora da Alemanha, que é oferecido pela Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), em Blumenau. Apaixonada pelo setor desde que atuou em uma empresa especializada em fermento, a decisão por investir numa segunda graduação foi pensada nas oportunidades. Ela é formada em Engenharia Química.

— O mercado está amadurecendo e ganhando força. Consequentemente, a profissionalização também. Fazer parte das primeiras turmas de ensino acadêmico no segmento é ter a certeza de que haverá muitas chances de contribuir e estamos sendo preparados para isso — afirma.

Espaço conquistado pelo conhecimento

Fernanda Meybon (Foto: Stivy Malty/Divulgação)

— Meu sonho é que o papel da mulher dentro do mercado cervejeiro seja tratado de forma tão natural quanto o do homem. A nossa luta é diária, temos o conhecimento testado a todo momento e isso faz parte da rotina do meu trabalho. Espero que algum dia possamos tratar isso como uma coisa do passado — diz Fernanda Meybon, Engenheira Química, Sommelière de Cervejas, Mestre em Estilos, Avaliação e Harmonização de Cervejas pelo Siebel Institute of Technology de Chicago (EUA).

Apesar do extenso currículo, foi por acaso que ela entrou neste universo.

—Sempre fui apaixonada pela bebida e resolvi que queria conhecer mais sobre o assunto. Depois de fazer o curso de sommelier, fui chamada para algumas degustações e eventos e percebi que isso estava deixando de ser um hobby para se tornar algo sério — comenta.

Natural de Porto Alegre (RS), mora em Florianópolis desde os três anos. Hoje, aos 40, é uma das mulheres mais reconhecidas dentro do setor, atuando na área desde 2014. Professora da Escola Superior de Cerveja e Malte nos cursos de Master em Estilos e pós-graduação em Tecnologia Cervejeira, Fernanda também é juíza de cervejas, certificada pelo Beer Judge Certification Program (BJCP).

Cerveja é coisa de quem gosta

Fernanda Bressiani (Foto: Odair Mendes/Divulgação)

Natural de São Paulo (SP), Fernanda Bressiani, de 41 anos, é Mestre em Estilos pela Escola Superior de Cerveja e Malte e não imaginou que a cerveja se tornaria parte tão importante da sua vida.

— Fiz o curso de sommelier porque queria me aprofundar um pouco mais neste universo. Acabei me apaixonando pela bebida por todas as possibilidades que ela traz. Comecei a trabalhar na área e, desde então, não parei mais. Hoje, para mim, tudo gira em torno da cerveja — afirma.

A arquiteta e moradora de Blumenau atua na criação de carta de cervejas em estabelecimentos e treinamentos e diz que já sofreu preconceito no meio.

— Eu acho que, acima de tudo, é preciso acabar com essa coisa de mulher e de homem. Somos pessoas, profissionais, independente do gênero. Acredito que a partir do momento que formos tratadas com o devido respeito, poderemos trabalhar juntos e fortalecer cada vez mais o setor — comenta.

Chef e sommelière

Larissa Guerra (Foto: Divulgação)

Foi através da gastronomia que Larissa Guerra confirmou sua paixão pelas cervejas artesanais. Ela é conhecida por unir os dois universos na Cozinha Catarina, projeto que surgiu em 2017 e ressalta os sabores regionais em pratos que levam a bebida na preparação.

— Comecei a me interessar pelo mundo das artesanais quando provei pela primeira vez uma Witbier. Lembro que fiquei encantada com o frescor e a delicadeza desse estilo e passei a pesquisar e procurar outros em viagens e a pensar em como poderia combinar com pratos e receitas — comenta.

Das suas criações, as preferidas são a Carbonade Flamande (carne de panela com cerveja Dubbel), sobrecoxa de frango com cerveja Tripel e o ceviche com Catharina Sour. Natural de Lages, Larissa tem 30 anos e é formada em gastronomia pela Senac e sommelier de cervejas pela Escola Superior de Cerveja e Malte.

Espaço para profissionais de várias áreas

Dulce Bachmann (Foto: Divulgação)

Enquanto a maioria das pessoas começa a atuar no mercado cervejeiro depois de estudar sobre a bebida, Dulce Bachmann, de 30 anos, veio na contramão. Começou a trabalhar em 2008 no Instituto de Administração e Direção de Empresas, que hoje é a Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM). Formada em Publicidade e Propaganda, foi quando a empresa passou a se especializar na bebida que ela sentiu que precisava se profissionalizar no segmento.

— Sempre gostei de cerveja, mas nunca imaginei que trabalharia com isso. Pensava em fazer cursos, mas como hobby. Quando passamos a atuar de forma significativa neste mercado, senti a necessidade de entender melhor como funciona o meio, as pessoas e também suas especificações. Como atuo com comunicação, isso foi essencial para que o meu trabalho fosse bem feito —, afirma.

Dentro deste universo, Dulce comenta que ainda existe muito machismo entre os profissionais.

— Há mulheres incríveis que podem representar o mercado cervejeiro, não só em Santa Catarina, como em todo o país, que muitas vezes encontram barreiras simplesmente por serem mulheres. É uma luta diária, constante, para quebrar esses preconceitos — complementa.

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