Chantalla Furlanetto e outros viajantes catarinenses contam quais os motivos para viajar

Chantalla Furlanetto - Foto Felipe Carneiro

Por Fabiano Moraes, especial
Foto Felipe Carneiro

Viajar é bom e todo mundo gosta. Não importa se é para longe ou perto; se é de ônibus, carro, navio ou avião; se fica em hotel cinco estrelas ou no albergue mais barato. Mas a realidade é que pode ser um privilégio para poucos. E é por isso que o culto ao “largar tudo e viajar para ser alguém melhor” pode se tornar tão ingênuo. Faz parecer que é apenas questão de escolha. Não é. É uma opção que só existe para os que têm condições de escolher (ou se planejar).

Talvez por saber disso, a indústria de viagens e turismo – um mercado que representa 10% da produção econômica no mundo, segundo informe da associação empresarial britânica World Travel & Tourism Council (WTTC) – embaralhe ainda mais a sempre confusa relação entre desejo e necessidade. Também não é por acaso que grandes empresas estão investindo cada vez mais em campanhas de marketing que exploram o lifestyle do viajante cool e apaixonado por aventuras em lugares exóticos. Governos de países muito visitados também estão atentos à rentabilidade do turismo. Nos Estados Unidos, essas políticas governamentais receberam o nome de Soft Power of Diplomacy.

No entanto, há pessoas que conseguem ir além desta visão de mercado e encaram a experiência como uma oportunidade de aprendizado e até mesmo de ampliar a rede de contatos – inclusive para o trabalho. Entre os entrevistados desta reportagem, há quem se inspire, aprenda e se reconheça em outros lugares além do próprio lar, saindo da zona de conforto.

Mas, então, viajar para quê? Por que tanta gente tão diferente coloca o pé na estrada (e o cartão de crédito internacional na carteira) e parte em busca da tal experiência transformadora? Seja qual for a motivação, o orçamento ou o destino, poucas ações são tão carregadas de simbolismo quanto colocar algumas roupas em uma mala e sair de casa – independente do significado que isso possa ter para você.

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Mundo afora: Chantalla Furlanetto

Chantalla Furlanetto – Foto Felipe Carneiro

De Florianópolis, Santa Catarina

A surfista profissional e apresentadora Chantalla Furlanetto, 28 anos, viaja desde os 12. Nascida na Barra da Lagoa, conhece 18 países e diz que ainda não descobriu seu lugar no mundo. Em um processo particular de autoconhecimento, passou dois meses em um veleiro percorrendo o extremo leste da Rússia e o norte do Pacífico até chegar no Alasca. A aventura foi a trabalho – irá ao ar em uma série produzida pelo canal a cabo Off –, mas também resultado de uma escolha em prol do projeto: abriu mão das passagens aéreas já compradas, do calor e da hospitalidade de Bali, na Indonésia, para enfrentar o frio, dias de enjoo em alto-mar, choro e até mesmo momentos de depressão. Em uma tarde ensolarada de inverno em Florianópolis, conversamos sobre esses e outros assuntos. Confira a entrevista:

Por que viajar?
Preciso me sentir livre e não sinto isso aqui em Florianópolis.

Tem a ver com alguma tendência ao isolamento?
Também. Mas eu escolho lugares onde eu possa conhecer pessoas diferentes. Quando estou viajando, me sinto muito mais aberta a viver todas as possibilidades. Na minha cidade eu me fecho no meu mundinho, estou sempre fazendo as mesmas coisas. E viajar é como se fosse… Sou eu mesma. Aqui não consigo ser quem eu sou de verdade.

Viajar continua sendo de acesso restrito. Você entende o privilégio que é isso?
Tenho. Vivo viajando desde bem novinha. Talvez por isso, não pareça um produto pra mim. Desde quando eu participava de competições de surfe, fazia aquilo para poder viajar. Direcionei toda a minha vida para poder fazer isso.

Mas, ao mesmo tempo que liberta, também prende, não? Você disse que só consegue ser verdadeira quando está longe daqui.
A sociedade te exige tantas coisas, que fico pensando muito no amanhã, no futuro. Penso em tudo que eu preciso adquirir, em tudo que ainda preciso correr atrás. E todas as pessoas que eu conheço só pensam em trabalho-futuro-adquirir coisas. É raro você conhecer uma pessoa que dê valor para o agora, que se sinta presente. Eu sei que não pensar nisso é difícil na sociedade em que vivemos hoje. Quando estou em casa, só penso nas contas que eu tenho pra pagar (risos).

É como ir a uma festa que você sempre sonhou, mas sabendo que tem hora para terminar?
Não. Acho que estou procurando algo. Estou procurando o meu lugar no mundo. Ainda não achei. É uma busca.

Você disse que ficou deprimida em alguns momentos da viagem à Rússia. Precisa mesmo passar por isso para o autoconhecimento? Fazer terapia não seria mais eficiente?
O problema é que, na terapia, você se descobre, mas não está em um lugar incrível e sabe que as contas a pagar estão esperando em casa… Já pensei em fazer terapia, mas acho muito caro (risos). Talvez eu fosse gastar muito tempo e dinheiro para entender o que descobri viajando.

Mas precisa ir ao limite em uma viagem? É algum tipo de provação?
Eu não sabia que a travessia (da Rússia ao Alasca) seria tão difícil. Mas foi a partir das crises de enjoo que tive no barco que pude descobrir como sou forte. Fiquei 11 dias sem tomar banho. Em dois meses, só tomamos banho sete vezes. Sabe o que é você sair da água gelada e, às vezes, não ter um banho quente? Água era ouro pra nós. Hoje valorizo muito mais tudo o que eu tenho.

“Hoje valorizo muito mais tudo o que eu tenho”

Viajar é um ato egoísta?
Pode ser. Sempre tive minhas viagens como algo meu e nunca achei que fosse egoísta por pensar assim. As pessoas que estão ao meu redor sempre ficaram muito felizes de me ver realizando meus sonhos. Sempre me apoiaram e nunca viram como algo egoísta. Mas, quando viajo, penso só em mim. É tudo “eu, eu”. Por outro lado, acho que ninguém evolui dentro de casa, convivendo com as mesmas pessoas.
Esses dias conversei com uma pessoa sobre a minha última viagem e notei que ela ficou com os olhos cheios de lágrimas enquanto eu falava. Disse que sonhava fazer isso um dia. E eu sei que é uma pessoa com condições financeiras para fazer isso, mas não coloca como uma prioridade. E aí você vai passar a vida inteira trabalhando para deixar de lado o que faz os seus olhos brilharem? Eu não faço isso. Então, sim. Posso ser egoísta.

Você disse que está procurando seu lugar no mundo, mas essa busca não tem fim. Como é isso?
Você consegue ter tudo o que quer? Não. Então, o pouco de liberdade que sinto quando posso viajar é suficiente pra mim. Isso não me frustra.

Pretende viajar até quando?
Não sei. Se eu pensar que tenho que ter um apartamento, um carro, uma velhice segura… Mas quem garante que terei uma velhice segura? Viajo desde os 12 anos e sempre fui focada no presente. Quando você vem de uma família pobre, como é o meu caso, se pensar muito no amanhã, ficará doente (risos).

Experiência transformadora: Maria Jetteberg

Maria Jetteberg – Foto arquivo pessoal

De Oslo, Noruega

Maria Jetteberg é estudante de Psicologia e professora de yoga. Nos conhecemos ano passado, na Califórnia. Ela rodou boa parte do estado norte-americano captando imagens e depoimentos de desconhecidos ou amigos de ocasião. O material virou uma série de vídeos em seu canal no YouTube. O tema: os motivos que levam tanta gente a buscar uma “experiência transformadora” viajando. Aos 24 anos, é uma globetrotter que já esteve em 28 países e diz que viaja em busca de inspiração para viver. Morando em Oslo, ela estava na Sardenha, ilha italiana banhada pelo Mediterrâneo, quando respondeu as perguntas por e-mail. A conversa foi sobre inspiração, medos e tipos de viajantes. Leia os principais trechos.

Viajar não é algo acessível para a maioria das pessoas, um pouco pelo custo e pelo tempo que leva para planejar tudo. Você se sente privilegiada por ter a vida que tem?
Sim. Eu me sinto privilegiada. Estou sempre agradecendo por isso. Sou grata e agradeço quando tenho a oportunidade de conhecer um lugar novo no mundo.

O que significa viajar? Uma forma de autoconhecimento? Um meio de enxergar o outro e entender a sua própria vida e problemas? Como é para você?
Viajar para mim significa inspiração. Eu sempre tenho ideias criativas quando estou viajando. Também significa se desafiar. Às vezes pode ser assustador deixar a segurança da minha casa, do meu lugar, e sair para conhecer culturas diferentes. Às vezes você tem muito tempo para pensar, às vezes você sente muita saudade de casa.
Eu cresço com todos esses sentimentos. Eu também adoro experimentar novas culturas, usar todos os meus sentidos: novos cheiros, novos gostos, novas coisas para ver. Eu cresço e me inspiro com isso.

“Viajo para ter uma perspectiva mais ampla da vida”

Que tipo de viajante você é? Aquele que prefere ficar mais tempo em um só lugar ou o que visita vários lugares por pouco tempo?
Depende. São duas coisas diferentes. Quando estou em um lugar por um período maior, tenho a oportunidade de conhecer melhor o local. Talvez eu tenha a sensação de como é “viver” ali. Às vezes eu posso ficar entediada e, quando isso acontece, parece que as ideias começam a aparecer na minha mente. E então, se estou no mesmo lugar por um longo tempo, eu também tenho tempo para começar a trabalhar isso. E essa é uma sensação muito boa. Mas, por outro lado, eu gosto de conhecer outros lugares, para ver as muitas possibilidades e ter inspiração com cada lugar.

Do que você mais gosta na sua vida?
Eu gosto de ter a oportunidade de fazer o que eu quero e poder viver meus sonhos, mesmo que isso possa ser assustador às vezes.

Viajar pra quê?
Eu viajo porque isso me dá inspiração. Eu viajo porque eu quero ver o mundo e conhecer pessoas com outras culturas. Eu viajo para ter uma perspectiva mais ampla da vida. Eu viajo para desafiar a mim mesma.

Tudo é circunstancial: Adriano Pasini

Adriano Pasini – Foto arquivo pessoal

De Turvo, Santa Catarina

Adriano Pasini, 27 anos, é consultor de branding e gerente de projetos. Mesmo apaixonado pela combinação praia-sol-mar, em 2015 resolveu deixar Florianópolis e o trabalho em uma agência de publicidade para estudar inglês na fria Irlanda e também tentar adquirir experiência profissional em outro país. Hoje vive na cidade italiana de Como, na região da Lombardia, trabalha para uma empresa suíça e administra a saudade do namorado irlandês e da mãe, que mora em SC, com visitas esporádicas, uma visão um tanto pragmática e o entendimento de que “tudo é circunstancial.”

O que viajar significa para você?
Representa um confronto genuíno com tudo o que tomamos por garantido no nosso dia a dia e sequer nos damos conta. É a oportunidade de conhecer pessoas incríveis de todas as partes do mundo, reavaliar prioridades, aprender a língua local – e o sotaque – e, principalmente, adicionar experiências relevantes ao meu background profissional. Só as comidas que decepcionam (risos).

Por que abrir mão da segurança do que é conhecido para buscar algo em outro país?
Quando fui morar na Irlanda, em 2015, eu estava sentindo que, naquele ponto da minha vida – 25 anos –, ter uma experiência no Exterior e aprender inglês seriam imprescindíveis para uma alavancagem na minha vida profissional e pessoal. Naquele momento, eu não tinha uma ideia precisa sobre quanto tempo, ou destino, ou onde trabalhar, morar ou qualquer coisa do gênero. Apenas confiei que, independentemente do que acontecesse, eu seria capaz de administrar a situação.

“Cada um evolui da forma que pode. Uns em casa, outros viajando”

Como foi?
No primeiro ano, estudei e trabalhei em posições operacionais, como em loja de roupas, café e eventos. Mas, ao mesmo tempo, fazia malabarismos para me manter conectado com a minha área profissional, prestando consultoria para clientes no Brasil e novos clientes na Irlanda, mesmo com as restrições de visto e todas as dificuldades de ser novo no país e sem conexões profissionais locais. Um ano e meio depois de chegar a Dublin, com o inglês fluente e algumas experiências profissionais, decidi mudar temporariamente para a Itália, para finalizar o meu processo de reconhecimento de cidadania. Na Itália, foi uma nova etapa de desafios. Mas, dessa vez, eu já estava bem mais preparado. Enquanto o processo de cidadania acontecia, eu iniciava a busca por oportunidades – agora sem restrições de visto. Acabei sendo convidado para colaborar com uma companhia suíça de consultoria, que me propôs continuar morando na Itália. Aceitei e estou feliz no momento. Talvez no próximo mês seja diferente. Nunca dá pra saber. Apesar da minha prioridade ter sido sempre profissional, todas essas vivências acabam promovendo uma soma de inteligência emocional também.

Muita gente diz que viajar transforma as pessoas para melhor. Você acredita nisso?
Viajar tem o poder de transformar, sim. Mas toda transformação depende muito do sujeito que a performa. Conheço pessoas que tiveram experiências realmente positivas, que são a grande maioria. Aprenderam línguas, desenvolveram habilidades, passaram trabalho e se desenvolveram muito. Já outras não conseguem “superar” uma viagem que aconteceu há cinco anos e beiram a chatice porque só viveram a viagem pela lente da câmera.

Que tipo de viajante você é?
O que existe de mais legal em viajar é exatamente aquilo que você não vê nem depois de 30 dias na mesma cidade. Acho que a experiência imersiva de aprender a língua local, o jeito das pessoas, o sotaque, as preferências, te permite ser capaz de traduzir todos esses insights em entendimento coerente dessa experiência.

PARA LER DEPOIS

Site
O Family Break Finder reúne em um mapa os slogans de países e dá uma ideia de como os órgãos oficiais de turismo “vendem” seus melhores atributos. Acesse aqui.

Livro
O livro Overbooked: The Exploding Businessof Travel and Tourism, da premiada jornalista norte-americana Elizabeth Becker, traz o resultado de uma pesquisa sobre as mudanças sociais e ambientais promovidas pelo avanço do turismo. Lançado em 2012, trata a viagem como o que ela realmente é: um produto. (Disponível em inglês)

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