Por que famosos estão apadrinhando um projeto social catarinense

Samuel Schmidt, criador do Cidades Invisíveis, fala sobre a parceria com o top fotógrafo de moda Jacques Dequeker e a incubadora criada na comunidade

Samuel Schmidt
Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

Foi na época que ainda trabalhava como fotógrafo, em 2012, que Samuel Schmidt sentiu a necessidade de se envolver mais com causas sociais. Clicando comunidades pobres na Grande Florianópolis teve a ideia de lançar uma marca de roupas que estampasse a realidade de centenas de famílias – e de vender essas peças para ajudar diretamente as pessoas. Assim nascia o projeto Cidades Invisíveis, uma marca social criada para gerar renda e oportunidades.

Seis anos depois Samuel se orgulha de já ter ajudado mais de 20 mil pessoas e comemora um passo importante do projeto: a abertura da incubadora Bonsai dentro da Frei Damião, em Palhoça, que capacita mulheres com cursos de costura e bordado. Mais do que arrecadar dinheiro, a ideia é empoderar as moradoras de uma das comunidades mais pobres do Estado e produzir lá mesmo todas as peças que serão comercializadas. Aquela velha história de não dar o peixe, mas ensinar a pescar.

Ao mesmo tempo colhe os frutos da visibilidade que o Cidades Invisíveis tem ganho com o apoio de famosos. As atrizes Thaila Ayala e Giulia Costa se declararam embaixadoras do projeto e contribuíram de forma voluntária, assim como o top fotógrafo de moda Jacques Dequeker, que acaba de produzir uma coleção em parceria com a marca  e fez um ensaio dentro da própria comunidade. Uma baita conquista para quem há tanto tempo vem fazendo um trabalho de “formiguinha”. Samuel não ganha um centavo com o projeto e toca tudo praticamente sozinho. Foi na Frei Damião que ele me recebeu para esta entrevista inspiradora, daquelas que nos fazem acreditar que se cada um fizer a sua parte é possível construir um mundo muito melhor.

Samuel Schmidt
Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

Da venda de camisetas a uma incubadora que vai ajudar na produção das peças. Como se deu essa transformação do Cidades Invisíveis?
Em 6 anos de projeto a gente foi percebendo nossos erros e acertos e vimos que nosso olhar não podia ser mais assistencialista. A partir do ano passado começamos a mudar a perspectiva do projeto e a desenvolver programas que levem ao empoderamento, então veio a ideia do Bonsai. O nome da incubadora veio do economista Muhammad Yunus que faz uma comparação da pessoa pobre com uma árvore bonsai. Ele diz que na árvore bonsai não existe nada de errado com a semente, se for plantada numa floresta ela vai crescer enorme, vai ser uma árvore linda. O problema do bonsai é porque ele é plantado num espaço pequeno, então ele diz que a pessoa pobre não cresce por falta de oportunidades. A gente batizou de bonsai exatamente pra que seja uma incubadora que potencialize as capacidades dessas pessoas.

O que já é feito hoje no Bonsai?
A incubadora foi inaugurada há pouco mais de um mês e inicialmente estamos focando mais na parte de trabalho manual, costura, tricô, crochê. A gente quer trazer a mulher, para empoderá-la, para ela se sentir forte e até mais respeitada dentro de casa. Nós começamos com um curso de customização de roupas e de bordado. Fizemos uma parceria com a Udesc, uma professora ofereceu um curso intensivo e nós capacitamos quatro mulheres que estão produzindo para o Cidades Invisíveis e queremos futuramente produzir peças também para outras empresas. Se a gente conseguir trazer mais empresas para cá, vamos gerar mais renda para elas. A a nossa ideia é que cada mulher que esteja aprendendo de forma gratuita replique esse conhecimento para outras mulheres da comunidade. O nosso objetivo sempre foi produzir nossas peças dentro da comunidade, inclusive queremos começar a fazer uma oficina de serigrafia para também envolver os homens na estamparia.

Como se deu a parceria com o fotógrafo Jacques Dequeker?
Em 2016 a atriz Thaila Ayala conheceu o projeto e se declarou madrinha. A partir daí começamos a ter uma visibilidade maior. Mais pessoas foram nos enxergando e querendo saber qual era nosso trabalho. No ano passado eu conheci o Dequeker, que sempre quis se envolver em algo social e queria dar outro sentido para a fotografia dele, queria algo de moda com propósito. Nós nos reunimos e resolvemos fazer uma coleção, uma collab com ele, e 100% da venda desses produtos é destinada a fortalecer o trabalho das mulheres do Bonsai.

giulia costa
Foto Jacques Dequeker/Divulgação

Ele fotografou a atriz Giulia Costa, filha da Flávia Alessandra, aqui dentro da Frei Damião. Como foi para a comunidade?
A gente estava em dúvida se fazia o ensaio aqui ou em São Paulo, mas ele queria muito conhecer o trabalho na Frei Damião. Fizemos as fotos num sábado e a comunidade toda achou legal, as crianças iam atrás da gente, todos participaram. O que a gente precisa fazer é estar presente mesmo na nossa ausência, ou seja, a partir da criação dessa autonomia para eles. E eles gostam quando a gente vem com alguma celebridade aqui, ficam muito felizes.

Onde as peças são vendidas hoje? Conseguem comercializar um volume bacana?
Hoje o consumidor voluntário pode nos procurar pelo Instagram ou pelo site www.projetocidadesinvisiveis.com.br, mas o volume vendido ainda é baixo.  A nossa maior dor como empresa é que a gente tem um olhar muito grande para o social e acaba esquecendo essa parte comercial, temos que achar o equilíbrio porque quanto maior for o volume de vendas mais a gente vai conseguir ajudar as pessoas. Nós fizemos, por exemplo, pulseiras em parceria com a designer de joias Fabi Jorge e em 2 dias conseguimos dar 3 vezes a renda que uma família tinha de bolsa família. Então estamos buscando alguém que nos ajude nessa parte de gestão.

giulia costa
Foto Jacques Dequeker/Divulgação

Conseguem mensurar o impacto desses seis anos de projeto?
Fizemos uma estatística em parceria com uma instituição e com base em alguns indicadores de que 20 mil pessoas foram auxiliadas pelo projeto, em diferentes comunidades. Na Frei Damião percebemos ainda como as crianças ficaram mais carinhosas, mais educadas, a gente tem uma kombi que é uma biblioteca móvel, promovemos contação de histórias, sessão de cinema, tudo isso pra mostrar que a favela pode ser um caminho sustentável. Porque a dificuldade deles é sair, aqui não passa nem transporte público, então o nosso movimento é para eles entenderem que aqui é o lugar deles e terem orgulho de morar e se desenvolver aqui.

Quais os projetos futuros?
Agora quero estruturar o Bonsai, trazer mais cursos, mais parceiros para me ajudar e quem sabe replicá-lo em outras comunidades, mas um passo de cada vez.

Assista ao vídeo com a entrevista:

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