Cineasta catarinense ganha destaque com produção em Hollywood

O documentário registra a vida de Jonathan Shaw, um famoso tatuador americano que desenhou na pele de Johnny Depp, Max Cavalera, Kate Moss, entre outros, além do entrevistado Iggy Pop

Foto: Leo Munhoz

Aos 26 anos, Mari Thomé já é uma das grandes apostas do mundo cinematográfico. A carreira da catarinense, natural de Florianópolis, começou recentemente com o pé direito. Seu primeiro documentário foi feito em Hollywood, distrito de Los Angeles, onde mora.

— A minha primeira entrevista da vida foi com Iggy Pop! Em Cannes! Eu estava tão nervosa que acho que dormi só duas horas aquela noite — comenta.

A entrevista faz parte do documentário Scab Vendor, que será pré-lançado em Florianópolis em março, ainda sem data e local definido. Dirigido pela catarinense ao lado do também brasileiro Lucas de Barros, o documentário registra a vida de Jonathan Shaw, um famoso tatuador americano que desenhou na pele de Johnny Depp, Max Cavalera, Kate Moss, entre outros, além do entrevistado Iggy Pop.

O filme tem cenas gravadas em Los Angeles, Nova York, México e Rio de Janeiro, em cidades onde Jonathan Shaw morou. Para registrar essa história, Mari Thomé dedicou dois anos em pesquisas sobre a vida do astro da cena underground americana, num período sem patrocínio que a diretora precisou conciliar com a entrega do TCC na faculdade.

— Eu não tinha dinheiro e não queria fazer essa produção com minha câmera e meu microfone pessoais, que apesar de serem bons não eram os equipamentos mais adequados. Então me dediquei à pesquisa e foi aí que eu descobri a vida dele além do que ele conta para as pessoas. E eu não tinha ideia que ele é um acumulador. Eram caixas e mais caixas com, até mesmo, cartas de romance trocadas entre seus pais. A mãe dele, Doris Dowling, era uma artista de filme B dos EUA – participou de centenas de séries americanas e fez filmes na Itália. O pai dele, Artie Shaw, é uma das figuras mais famosas do jazz dos EUA, dividiu palco com o Sinatra.

Os documentos encontrados por Mari Thomé registram que Jonathan foi abandonado pelo pai e a mãe, alcoólatra, também não foi referência para a criação do futuro tatuador, que vivia em festas com Rolling Stones e James Morrison, regadas a drogas. Foi aí que Jonathan Shaw se tornou um viciado.

— Ele falou que se continuasse nessa vida ia se matar ou de overdose ou suicídio. Foi quando decidiu que viria para o Brasil. Com 19 anos, pegou caronas até o México e lá, numa cidade portuária, começou a tatuar, devido ao movimento dos marinheiros na região. Depois de alguns anos, ele conseguiu vir de navio até o Belém e, pedindo carona, chegou ao Rio de Janeiro, no meio da ditadura militar, disposto a trabalhar com tatuagem. Foi após 10 anos que ele retornou para os EUA e abriu o estúdio de tatuagens mais antigo de Nova York, que segue funcionando até hoje na cidade.

Foto: Leo Munhoz

Ao fim do TCC, Mari Thomé se viu com mais de 5 mil arquivos catalogados e nenhum dinheiro. O que ela não contava é que a sorte ainda estava do lado dela – e o talento, é claro.

— Na mesma época, um curta que eu tinha gravado no primeiro ano da faculdade foi selecionado para uma exibição em Cannes e fiquei sabendo que Iggy Pop iria para o mesmo evento. Era a minha chance de gravar com um dos melhores amigos de Jonathan. Decidi gravar com meu equipamento mesmo, sem dinheiro, sem nada. Não podia perder essa oportunidade. O Jonathan topou e agilizou o encontro. Foi assim que gravei a minha primeira entrevista da vida.

Pouco tempo depois, com um teaser contendo uma entrevista de peso, Mari Thomé conseguiu vender o projeto e ser aceita por uma pequena produtora, que entrou com a execução do projeto, e dinheiro, em 2017. Assim, Mari conseguiu realizar as gravações também no México e no Brasil e concluir a produção do documentário que, além de perfilar o astro, tem um significado emocionante para a jovem diretora catarinense.

— Um cara de 60 anos olhou para mim com 23 e disse: você vai fazer meu documentário. Ele é 40 anos mais velho que eu e lê os mesmos livros que eu li, curte as mesmas músicas. Tantos paralelos na vida que também inspiram ele. Então vi o quanto existe no mundo que conecta a gente além da idade. Gerações passam e certas coisas da arte continuam conectando todo mundo. Chegar nessa conclusão me emocionou muito. A mensagem que eu acho mais legal é essa: como a arte transcende gerações.

Assista ao trailer:

Who is Jonathan Shaw? – From Scab Vendor The Life and Times of Jonathan Shaw from MARACA on Vimeo.

Documentário x Ficção

O espaço cedido para exibições de documentários no mundo está crescente. Segundo Mari Thomé, o tempo de produção, maior que dos filmes de ficção, é um dos principais motivos para a falta de incentivo da produção documental.

— É um meio que você gasta pelo menos três vezes mais em produção. Porque não é só fazer um roteiro, definir datas e gravar as cenas. Exige pesquisa e a história muda a cada pedaço de papel que você encontra. Nós, por exemplo, levamos três meses selecionando o que iriamos colocar no documentário e na montagem e, então, odiamos o primeiro resultado e tivemos que recomeçar. Tem muitas variáveis.

No Brasil, onde a diretora tem projetos para os próximos meses, Mari percebe uma limitação da produção, que “na maioria das vezes, depende de um mesmo canal de TV, que faz tudo igual, no mesmo estilo de gravação. Perde o valor artístico do negócio”.

Com estadia confirmada até julho deste ano em Florianópolis, Mari promete surpreender os catarinenses com novos lançamentos.

— Por enquanto é tudo confidencial.

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