Opinião: “Círculos” é uma obra madura de uma diretora que se interessa por pessoas

Documentário catarinense Círculos foi exibido nesta terça (8), na Capital. Foto: Novelo Filmes

Por Andrey Lehnemann

Quando uma colheitadeira apaga discretamente os sinais deixados em um campo de trigo no Oeste de Santa Catarina, ainda é possível ver de cima as sequelas indicadas pelo fenômeno dos agroglifos, como se nenhuma ação pudesse obliterar os resultados na região. A memória permaneceria viva para aqueles que testemunharam os sinais, afinal.  Numa extensão de pouco mais de 261.390 metros e com cerca de 6.800 habitantes, a incidência que uma novidade dessas causa é gigantesca. Como registrar essa histeria? Melhor: existiria uma neurose coletiva? Ou a pergunta que o evento provoca é legítima e misteriosa?

Cíntia Domit Bittar, a diretora catarinense, não parece interessada no mistério em si, embora pincele observações importantes sobre o fenômeno, como demonstra sua inclinação a procurar histórias que possam desvendar os ocorridos, tal qual a representação indígena ou as manifestações curiosas de luzes que antecedem as aparições, mas, sim, nas pessoas atingidas pelos agroglifos. Como esses sinais transformaram as vidas de pessoas de uma sociedade pacata?!

São histórias como as de Ivo, Marcelo e, em menor grau, Gevaerd, que entusiasmam a documentação de Cíntia acerca da paixão de um povo pelo inexplicável. A busca acalorada, e a caça, por sinais que de alguma forma forneçam uma originalidade num cotidiano que parece haver muito pouca. A poesia visual de Círculos está em seus personagens, os causos contados por eles, suas elucubrações diante do fantástico: a obra seria da prefeitura, de extraterrestres, intraterrenos?

Todos são afetados de alguma forma, conforme registram as câmeras de Cíntia. Desde o pesquisador deslumbrado até o dono da propriedade, que num momento de reflexão singular acende seu charuto e analisa os vestígios abandonados em sua plantação. Por consequência, cenas como aquela em que Gevaerd observa o agroglifo, enquanto o drone o usa como referência para subir a uma altura que permita o espectador notar exatamente os sinais fascinantes que o entrevistado está avaliando, passam a ser fiéis ao deslumbramento do próprio documentado.

De tal modo, Cíntia, não tão diferente de seus personagens atraentes, evidencia que busca também o inesperado, o algo novo, o fatídico. A diferença para ela é que isso não está nos sinais; está nas pessoas.

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