O colo é demarcação, solo sagrado onde mal nenhum pode entrar

marcos piangers
Foto: Giselle Sauer/Especial

A Aurora me contava em detalhes suas aventuras, antes mesmo de aprender a falar. “A bibiba bateu no bebo, lola uááá”, contava ela, sobre a vez que bateu o joelho na cadeira e chorou. “Lola uááá muto”, deixando claro que chorou muito. Contava como ralou o cotovelo, como caiu no pátio da escolinha, como bateu de cabeça na cabeça de uma outra criança, enquanto corriam. Contava tudo com bibibis e bababás e eu ouvia atentamente, fazendo perguntas para que ela continuasse. Eu não entendia tudo, mas entendia que ela se sentia bem me contando todas as suas aventuras. Ou achando que estava me contando.
Depois de cada machucado, pedido de colo. O resumo da primeira infância é brinca, brinca, brinca, chora e colo. Depois recomeça. Brinca, brinca, brinca, choro e colo. E assim por diante. Diversão e machucados, é isso que nos espera durante toda a vida. E colo. Não pode faltar o colo.

O primeiro colo da Aurora foi de uma enfermeira. O segundo da mãe. O terceiro foi meu. Bem-vinda, filha. O mundo é duro e frio, mas um colo nos ajuda a passar por isso. As crianças acreditam que um colo cura qualquer coisa. Um joelho ralado, uma saudade, as decepções da vida. E, enquanto o colo cura a criança, cura também o pai. Para os que não receberam colo quando crianças, dar colo é cura. Recomeço. Demonstração de força e afeto.

Para os que tiveram, é retribuição.

Quando precisam de mim, abraço minhas filhas como minha mãe me abraçou. Nossos filhos aperfeiçoam nosso abraço. Quando abraçamos nossos filhos, abraçamos também a nossa mãe, agradecendo por tudo o que fez por nós. Quando um pai abraça um filho, abraça ele mesmo. Cura traumas, mágoas, lembranças tristes.

O colo é demarcação, solo sagrado onde mal nenhum pode entrar. É ninho, local seguro de consolo e recuperação de forças. Colo é dar exemplo, deixar herança, perpetuar  uma mensagem palpável de bondade e amor.

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